A fisioterapia respiratória tem sido uma importante aliada de pacientes com Covid-19. Mesmo naqueles em que os casos são menos graves, os exercícios podem ajudar e muito na reabilitação. Os exercícios para recuperar a capacidade respiratória já são usados após períodos de internação em unidades de tratamento intensivo (UTI), mas podem ser importantes mesmo nas situações em que a pessoa se tratou em casa.

As pesquisas mostram que muitos pacientes apresentam sintomas ligados à perda de capacidade respiratória após ficarem doentes. Isso pode acontecer em cerca de 30% das pessoas que se curam da Covid. 

Para falar um pouco dessa prática, O NORTE conversou com a fisioterapeuta Roseane Caldeira, professora da Funorte, que destaca a importância de as pessoas ficarem atentas aos sinais de problemas respiratórios pós-Covid.
 
Nos pacientes que desenvolvem a forma grave da Covid-19, quais as principais complicações?
Podem surgir diversas complicações pulmonares, como atelectasia (fechamento dos alvéolos), que impede a passagem do ar; lesão de traqueia, devido ao tempo de intubação; ou mesmo a trombose, que acontece devido à Covid alterar a viscosidade do sangue. Outras complicações são relacionadas à visão turva, alteração de equilíbrio e perda de força da musculatura esquelética.
 
Qual a importância do fisioterapeuta no atendimento hospitalar?
O fisioterapeuta é essencial no serviço, desde a área hospitalar, clínicas e domiciliar. A presença do fisioterapeuta é primordial na equipe de uma UTI. É esse profissional que, muitas vezes, mediante uma avaliação, é que determina juntamente com os médicos a possibilidade de retirada do tubo orotraqueal (TOT), alterações de parâmetros de um ventilador mecânico, além de trabalhar, ainda no leito, toda a parte muscular e respiratória com técnicas específicas para cada caso.
 
Qual é o papel do fisioterapeuta na recuperação desse paciente? 
O fisioterapeuta tem papel importantíssimo também na recuperação do paciente pós alta hospitalar, principalmente aqueles que ficaram internados por cinco ou mais dias. É o fisioterapeuta que trabalha toda a mecânica respiratória, proporcionando redução da dispneia (falta de ar), causada pela fibrose pulmonar, e auxiliando o paciente para uma respiração correta e eficiente. É a fisioterapia que devolve a força dos músculos, com exercícios terapêuticos, capaz de deixar o paciente em pé e apto para fazer suas atividades de vida diária. Porém, temos que deixar claro que mesmo aqueles pacientes que tiveram sintomas leves podem apresentar persistência da falta de ar em atividades simples, como uma caminhada. Portanto, é preciso fazer uma avaliação e realizar o tratamento específico para redução ou eliminação desse sintoma. Não é normal sentir cansaço para fazer caminhada, tomar banho ou até mesmo uma caminhada curta. É preciso procurar um profissional especializado em respiração, ou seja, fisio cardiorrespiratório, pois, faz toda a diferença.
 
É possível fazer os exercícios em casa?
Cada paciente é um. Para saber quais exercícios a serem realizados, é preciso avaliação do sistema respiratório para posterior conduta. Mas, um exercício que pode ser feito por qualquer paciente pós-Covid e que auxilia no tratamento é a respiração em tempos. Puxa um pouco do ar e segura por dois segundos, depois puxa mais um pouco de ar e, em seguida, solta todo o ar que foi inspirado. 
 
A tecnologia também é aliada neste momento? 
Sim. Utilizo diversos materiais, aparelhos e testes para realizar a avaliação e tratamento do paciente. Todo profissional de saúde, em especial, deve e tem que ler e estudar todos os dias para acompanhar as mudanças de técnicas, novos aparelhos.
 
Em pacientes com sequelas leves, essa avaliação e orientação podem acontecer de forma remota?
É possível a avaliação de forma remota, inclusive tenho feito algumas. Mas é preciso cuidado e orientação a familiares, acompanhamento de dados importantes a serem avaliados durante a consulta, como a observação da pressão arterial, saturação de oxigênio, dentre outros.
 
CURRÍCULO 
Roseane Caldeira é formada há 20 anos pela Universidade de Ribeirão Preto (SP). Com especialização em fisioterapia cardiovascular e pulmonar pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP). Mergulhou nas questões ligadas às doenças respiratórias crônicas (asma/bronquite, enfisema, entre outras) e doenças cardiovasculares e nunca mais parou de estudar sobre esse universo. Foram sete anos entre mestrado e doutorado nessa área. Atualmente atua na docência da Funorte, realizando atendimentos em clínicas parceiras, como a Humanitas. 
 

É muito gratificante observar o paciente respirar bem, sem esforço, voltar às atividades simples, como pentear o cabelo, tomar banho, dar uma volta no quintal de casa, conversar com familiares, sem sentir cansaço para respirar. Roseane Caldeira, fisioterapeuta