O som das ambulâncias chegando é constante, leitos na capacidade máxima, profissionais de saúde exaustos na rotina diária de trabalho na linha de frente no combate à Covid-19. 

Essas são só algumas características na movimentação constante pelas alas e corredores de hospitais de Montes Claros que mostram uma pesada rotina na vida de médicos, enfermeiros e colaboradores.

Sem verem uma trégua do coronavírus, esses profissionais enfrentam medos diários, tristezas, cansaço, mas testemunham resistência, força e o amor pela vida. Doam muito de si, mas também recebem o carinho de quem está ali, na frente deles, lutando pela sobrevivência. 

Deixam em segundo plano a convivência familiar, o cuidado com os filhos, maridos, esposas, até mesmo para protegê-los da doença que tem assombrado a todos. 

Convivem, por outro lado, com familiares de pacientes aflitos, com incertezas e um sistema de saúde em colapso, que muitas vezes impede que façam aquilo que se propõem: salvar vidas.

O NORTE conversou com alguns desses profissionais, que relataram a difícil rotina dentro dos hospitais, como estão tendo a resistência testada a cada momento e como carregam consigo, acima de tudo, a fé e o amor ao próximo.

‘Tente extrair o melhor deste momento’
“Na minha vida, não imaginei que passaria por momentos tão difíceis como os que estamos agora! A cada plantão é um pedaço de mim que perco junto com algum paciente que, na frente da equipe, se despede dos familiares por telefone (isso quando teve a chance). Incontáveis vezes tive que realizar intubações com os olhos cheio d’água e disfarçando pra ninguém perceber! E quando o tubo já estava posicionado e o paciente recuperando a saturação, a única vontade era retirar o equipamento desconfortável e sufocante de proteção. Imaginar que meus olhos e minha voz seriam possivelmente as últimas lembranças que o paciente levaria deste mundo! E tentava fazer isso da melhor forma que eu conseguia... Mas, somos humanos e humanos cansam, falham e, em hipótese alguma, dominam todas as coisas neste mundo! Eu não sei qual a experiência que vocês têm desta fase das nossas vidas, mas uma coisa eu afirmo: não estamos todos vivendo a mesma pandemia! Uns perdem o vizinho, outros não perdem ninguém, uns perdem de uma só vez pai e mãe. Não me esqueço de um dia na UTI que em menos de 12 horas um casal se foi. Deixando filhos e memórias para trás! Tente extrair o melhor deste momento! Tente perceber que nada ainda é certo... Estamos todos aprendendo! Apenas tente... Eu estou tentando”. Enilton Teixeira de Freitas, de 26 anos, médico Clínico e Intensivista do CTI Geral e Covid do HCMR

‘Minha maior frustração é a menor idade das pessoas infectadas’
“Estou indo para a quinta intubação. Tem sido dias difíceis. Houve toda uma mudança drástica na rotina de todos nós, profissionais de saúde, que estamos envolvidos na linha de frente no combate ao novo coronavírus. E ela tem se tornado cada vez mais difícil, mais desgastante, estressante e tudo devido ao grande aumento no número de casos, a superlotação das unidades, a necessidade emergencial de se tomar decisões. Então, tudo isso tem vindo com muita dificuldade estrutural, psíquica e de recursos humanos, ocasionando um enorme desgaste a todos nós. Temos abdicado da família para evitar o contágio, limitando nossa convivência com todos os parentes e até mesmo com a própria mãe, porque não sabemos se vamos voltar para casa contaminados ou não. Tudo isso realmente nos impacta profundamente, porque tínhamos uma rotina e ela foi totalmente mudada com a pandemia. A jornada tem aumentado, vários colegas têm se contaminado e precisamos cobrir a falta que eles fazem nos plantões. A questão da limitação do lazer, de também podermos dar uma refrescada na memória, é outro ponto que aumenta a pressão que estamos vivendo. Minha maior frustração é a menor idade das pessoas que estão sendo infectadas, evoluindo para piora e, consequentemente, para a morte. É muito doloroso observar essa situação. Espero que haja uma melhora dessas contaminações com a ampliação da vacinação, mas o momento é de muito pânico”. Samuel Lima Pereira, de 32 anos, enfermeiro Especialista do HCMR

‘Chegamos para trabalhar na esperança de dar alento aos pacientes’
“O que temos vivenciado no dia a dia é algo muito difícil, carregado de muita angústia e sofrimento. Chegamos para trabalhar na esperança de poder dar um alento para os pacientes, porque somos as únicas pessoas que eles podem contar nesse momento. As famílias têm que ficar distantes, até mesmo para não serem contaminadas, e isso é muito triste. Vemos todos os dias o medo e a angústia que passam nos olhos do paciente. Ele sabe que se está ali, é porque ele não está bem e, de certa forma, no pensamento de alguns deles, a ideia que prevalece é a de que não vão conseguir sobreviver. Chegamos ao trabalho e procuramos dar o melhor de cada um de nós, lutando com o paciente a noite inteira para que ele possa ficar bem. Finalizamos o plantão, voltamos para casa, para o nosso descanso e, quando retornamos para o próximo plantão, não encontramos aquele paciente que estivemos ao lado dele todo o tempo. É muito triste e está sendo muito exaustivo, ao extremo. A situação atual não é boa e temos que pedir muito a Deus para que tenha misericórdia de cada um de nós e que isso passe logo, porque se continuar assim, vai ser muito mais difícil. De certa forma, sempre acabamos abrindo mão de alguma coisa em nossa vida. Somente pelo fato de sairmos do nosso lar, deixar a nossa casa e nossa família para lidar com toda a situação que estamos vivendo e cuidar do próximo, tem se tornado uma rotina bastante difícil”. Anazilde Aparecida Dias, de 49 anos, técnica de Enfermagem na Clínica Covid do HCMR

‘Em tudo sempre há beleza e bondade, mesmo que a gente só enxergue depois’
“Eu sempre gosto de pensar que em tudo existe beleza e bondade, mesmo naquilo que não enxergamos no momento. Dia desses, presenciei uma equipe de profissionais tentando reanimar uma paciente com parada cardiorrespiratória. Inicialmente fiquei chocada e depois triste, porque ela não resistiu. Olhei para a cena e me perguntei: onde será que tem beleza e bondade aqui agora? Passou um tempo... E me lembrei da equipe. Eles ficaram 1h20 tentando, não desistiram, se doaram por inteiro por ela... E quando ela não resistiu, eles tiveram que voltar e fazer isso, continuar se doando e acreditando nos outros cento e tantos pacientes... A pandemia é terrível, é triste, cruel... Mas, ainda assim, há esperança e beleza e há muita gente boa por aqui!”. Ana Paula Fernandes, de 29 anos, psicóloga do HCMR