As famílias montes-clarenses fecharam 2021 com muitas contas a pagar. O índice de endividamento ficou em torno de 70% no ano passado, de acordo com a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL). O percentual pode ser visto como uma preocupação para o consumidor ou como um alívio para os lojistas. Isso porque ele reflete o retorno das atividades e consumo de produtos diversos, interrompido no pico da pandemia.

“Com a vacinação e melhora do quadro epidemiológico, a população que estava com demanda reprimida acabou consumindo o que eles haviam parado de comprar. A gente viu muito consumo de material de construção, mobiliário, eletrodomésticos e a volta da compra de vestuário e calçados”, explica o presidente da CDL-MOC, Ernandes Ferreira.

Segundo ele, o endividamento corresponde a compromissos futuros. “Usaram cartão ou crediário, compraram com vencimento a médio ou longo prazos, com parcelamento de seis até 12 vezes”, afirma o gestor.

Para Ernandes, seria preocupante se estivesse nesse patamar o nível de inadimplência, o que não é o caso. Esse indicador permanece estável e a expectativa é a de que não aumente, com ambos, comprador e vendedor, buscando o equilíbrio.

“Não houve muita gente que não honrou suas dívidas. A taxa de inadim-plência ficou em torno dos 20%. A maioria pagou em dia. Acreditamos que em 2022 vai se manter essa estabilidade e é importante que o lojista, quando for dar o crédito, avalie o potencial de compra do cliente. O consumidor também precisa gerenciar o orçamento e fazer compras dentro das possibilidades, do que os ganhos possam cobrir”, ressalta Ernandes.
 
PRIORIDADES
Com o nascimento da filha e consequente aumento dos gastos, o motorista de aplicativo G.F. teve que reorganizar a vida financeira e estabelecer prioridades.

“Buscamos por alimentos mais em conta e com custo benefício melhor. Vestuário ficou por último, por não ser uma necessidade de renovação constante. A pandemia mudou muita coisa: aumentou o fluxo de corridas, porém o combustível também aumentou. Mudei minha prestação de serviço para locação de veículo”, conta.

Apesar de toda tentativa de controle, G. teve que recorrer a um financiamento. Mas afirma que essa alternativa deve ser usada apenas em último caso.

“O financiamento te dá um respiro, mas te prende em uma dívida de longo prazo. Ajudou muitos empreendedores neste período, mas eu indicaria para quem sabe fazer gerenciamento, analisar as taxas de juros e se vai ser viável para o negócio, pois nem todos sabem fazer este cálculo e criam uma situação que não tem fim”, alerta.
 
ALTERNATIVAS
Para Arleandro Rodrigues, analista do Sebrae, o endividamento familiar é uma questão cultural, especialmente no Brasil, pela falta de educação financeira que oriente o cidadão.

Ele acredita que isso possa começar a mudar com a obrigatoriedade de as escolas públicas oferecerem a disciplina de educação financeira, medida aprovada recentemente. Isso, na avaliação do analista, tende a mudar o cenário e as pessoas passarão a ter capacidade de gerenciar o que ganham e o que gastam.