O aumento do preço da carne bovina e outros produtos alimentícios tem obrigado donos de bares e restaurantes a fazer malabarismos para ajustar o cardápio na tentativa de segurar os custos de pratos oferecidos a fim. O objetivo é não espantar a clientela. Tarefa nada fácil.

Segundo as previsões da Faemg, a Federação de Agricultura e Pecuária de Minas, no acumulado de 2021 o valor médio da arroba pago ao produtor chegou a R$ 302,40, 6,2% maior que no mesmo período do ano passado, e o preço deve continuar em alta neste ano.

Tatiana Moura é proprietária do restaurante Tempero Mineiro, no Major Prates, um dos bairros de comércio mais efervescente da cidade. Segundo ela, uma estratégia para manter a qualidade das cerca de 50 refeições diárias é alternar o cardápio e não estocar alimentos. 

“Tenho feito muitas substituições. Estamos usando bastante o frango, carne de porco, mas a linguiça também teve aumento. Não podemos deixar de oferecer a carne bovina, então compro em menor quantidade e uma vez ou outra na semana”, relata a empresária. “Além da carne, todos os outros produtos no supermercado têm aumentado, mas faço compra todos os dias. Prefiro assim, porque às vezes um produto muito caro essa semana, na próxima, já caiu. E não dá para repassar isso para o meu cliente. Como vou explicar que hoje custa R$ 10, amanhã, R$11 ou R$ 12?”, questiona.

Diego de Macedo, proprietário da Einsten Cervejaria, teve que fazer alterações no restaurante em razão dos constantes aumentos de preços dos insumos. “A principal decisão que a gente tomou foi encerrar a opção de delivery no almoço. Tínhamos uma boa clientela, vendíamos bem, mas não foi só o aumento da carne bovina. Havia custos com entrega e embalagem, por exemplo”, diz o empresário. 

“Devido à pandemia, surgiram muitas cozinhas domésticas, regionais, nos bairros, nas ruas e aumentou muito a concorrência. Seguramos os preços por um tempo, mas fizemos alguns reajustes no cardápio e repassamos os preços”, explicou Diego, que trabalha atualmente com cardápio na casa, atendimento noturno e delivery de petiscos e lanches à noite. “Fizemos rescisões e diminuímos a equipe”, acrescentou.
 
EXPLICAÇÃO
A economista Vânia Vilasboas explica que o aumento do preço da carne bovina vem desde o fim de 2019 e ficou mais acentuado em 2021. “A carne de segunda variou mais de 34% e carnes de primeira, como o filé mignon, 94% em média (2019 a dez 2020). Vimos também que a carne avícola, que vinha sendo a aliada do consumidor, teve aumento de mais de 36% em 2021 motivada pela própria oferta/demanda e pelo preço de rações, que tem em sua composição o milho , cotado em dólar. 

Eduardo Canela, proprietário de um aviário, a pontua que a China abriu importação de insumos, o que refletiu nos preços no mercado interno e fez o produtor buscar caminhos alternativos. Com isso, houve o aumento em cadeia. No que se refere à carne do frango, houve desistência do produtor e menos gente produzindo, somado à demanda maior. “Chegamos a comercializar a saca do milho a R$ 37. Hoje, sai por R$ 100. Isso se aplica à soja também. A base da nutrição animal é soja, que é a proteína, e o milho, a energia da ração. Com toda certeza influenciou nos preços”.