Domingo (30) é o Dia da Saudade, data que ganhou significados mais amplos desde o início da pandemia, quando lutos de toda natureza passaram a integrar rotinas e aflorar sentimentos. A perda de entes queridos, a mudança no convívio com os amigos, o trabalho remoto, o lazer quase restrito às telas, o medo roubando tantas liberdades e confinando sonhos. Tudo antes disso é saudade.

Para tentar explicar o que é saudade, a psicanalista, psicoterapeuta e fundadora da Sociedade da Ciência do Sentir (Socis), Beatriz Breves, utiliza como metáfora uma orquestra, na qual há vários instrumentos, que podem ser vistos como a representação dos sentimentos. Isso porque, diz ela, precisamos entender que eles não andam sozinhos.

mar saudade

“A saudade é apenas um destes instrumentos, ou uma nota de uma canção. O sujeito para poder vivê-la vai agregar a ela outros sentimentos. Se for gratidão, por exemplo, fará uma conexão com coisas boas e aí poderão vir também a alegria, a felicidade. Neste caso, a gratidão dará a sustentação para que a pessoa vá à frente em sua vida”, pondera Beatriz, autora do livro “Entre o mistério e a ignorância - O Desvendar da Psique Humana”, e que há 35 anos estuda “o sentir”.

“Somos seres vibracionais e o sentir é a experiência que emitimos na vibração do que somos e, por isso, nenhum sentimento anda sozinho. Eles estão inseridos em um contexto extremamente complexo, que depende de cada pessoa”, explica a escritora.

SAUDADE: Substantivo feminino: Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; nostalgia. O termo vem do latim solitas, cujo significado é solidão. Existe em outros idiomas, embora tenha sido considerado por uma empresa britânica, que ouviu diversos tradutores, a sétima palavra mais difícil de se traduzir. Isso acontece por causa de fatores a cultura de cada país, que dá significados diferentes ao vocábulo. 

Valendo-se da mesma metáfora, a psicanalista alerta que conectar à saudade sentimentos como revolta, frustração, raiva, ou ainda fracasso, tristeza, amargura e decepção pode nos levara um estado de tristeza e atrofia interior.

“A orquestra está toda aí, e somos os regentes. Se a orquestra tem instrumentos afinados e boa regência a pessoa se escutará harmoniosamente. Importante é tentar identificar, por uma escuta pessoal, quais interações estão promovendo harmonia e ruídos, para então iniciar um processo de investimento pessoal na busca de uma transformação interna”, ensina.

“Nenhum sentimento anda sozinho. Eles estão inseridos em um contexto extremamente complexo, que depende de cada pessoa” (Beatriz Breves, psicanalista e escritora)

Atitude em relação aos acontecimentos da vida faz toda a diferença

A psicanalista Beatriz Breves dedicou praticamente toda a vida ao estudo dos sentimentos. Diz ter mapeado mais de 550, e acaba de lançar o livro “Entre o mistério e a ignorância — O Desvendar da Psique Humana”, no qual faz um percurso por vários campos do saber e conhecimento, como arte, biologia e física – área da segunda formação dela, que buscou ampliar o conhecimento sobre os humanos a partir de conceitos biofísicos.

Ao falar sobre a saudade, Beatriz Breves tenta manter o otimismo, apesar de reconhecer que há mais de dois anos, por causa da pandemia de Covid-19, vivemos momentos de dor e luto em função de perdas físicas e emocionais incalculáveis. 

Psicanalista Beatriz Breve

Especialista mapeou cerca de 550 sentimentos

“É difícil não associar a saudade à perda, em especial neste momento, mas por incrível que pareça, não temos saudade apenas de momentos concretos, podemos ter saudade de um sonho que não se realizou, que nós não concretizamos e, isso, não necessariamente, é perda”, esclarece. 

Postura conta

A especialista pondera que ter uma visão determinista, aquela que supostamente oferece apenas certezas na vida, é uma postura muito limitada, e que uma percepção mais otimista em relação à saudade estaria diretamente relacionada à aceitação de que uma boa dose de incertezas deveria ser incorporada a todas as vivên-cias do ser humano.

“Quando compreendemos a vida como um processo que flui na espiral permanente, formada pelo ir e vir de altos e baixos, na qual o sentir ocupa o lugar de ator principal na compreensão da psique humana, a saudade, para nós, pode passar a ter significados mais amenos”, conclui.