A jornalista mineira Daniela Arbex se preparava para ir a Santa Maria (RS) passar o sexto ano do incêndio na Boate Kiss junto a familiares das vítimas quando, dentro do ônibus, passou a receber informações sobre o rompimento de uma barragem de mineração no Córrego do Feijão. Junto com as notícias sobre Brumadinho, vieram os primeiros pedidos de ajuda para localizar pessoas até então desaparecidas. Começava ali a história que iria para as páginas de “Arrastados”, livro que acaba de ser lançado pela Editora Intrínseca – não por acaso, no dia exato em que a tragédia na mina da Vale completou três anos.

Bastaram dez segundos para que o mar de lama, formado por rejeitos suficientes para encher 400 mil caminhões-pipa, levasse tudo o que encontrou pela frente – inclusive 272 vidas. Uma destruição superlativa como o desastre na danceteria gaúcha, onde 242 jovens morreram, e que já tinha motivado uma obra anterior da jornalista: “Todo dia a mesma noite”.

Nesta entrevista ao Hoje em Dia, Daniela Arbex conta como foi a concepção de “Arrastados”, o que encontrou nas dez viagens que fez a Brumadinho e a importância da construção de uma memória histórica para tentar fazer com que tragédias como aquela não se repitam.

Qual foi sua reação ao saber do acidente e o desenrolar até a chegada a Brumadinho?

Eu li a primeira notícia ainda dentro do ônibus que me levaria do Aeroporto de Porto Alegre até Santa Maria (RS). Tinha me comprometido com os pais que perderam filhos no incêndio da Boate Kiss a passar a data dos seis anos do desastre com eles, na cidade. Naquele momento, já fiquei muito angustiada, estava longe de Minas Gerais e pensando nas pessoas e imaginando a dimensão da tragédia. Junto à notícia do rompimento, recebi nas minhas redes sociais um pedido de socorro, de ajuda para encontrar uma engenheira da Vale, que até aquele momento estava sendo considerada desaparecida, a Izabela Barroso Câmara Pinto. Quando me mandaram a foto da Izabela, fiquei muito impactada, pois era uma menina muito jovem, muito bonita, vestida de noiva. Pensei: “meu Deus, qual a história por trás desta foto?”. E disse para mim mesma: se um dia eu for contar essa história, a primeira família que eu procurarei será a da Izabela.

Quando retornei do Rio Grande do Sul, imediatamente me dirigi a Brumadinho, no início de fevereiro. Encontrei uma cidade muito traumatizada, em choque, incapaz de entender a dimensão da tragédia na qual ela estava inserida e com medo de falar.

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Então, você, em um primeiro momento, foi à cidade para fazer a cobertura da tragédia?

Sim. Eu sou de Juiz de Fora (MG) e naquela época trabalhava para um jornal diário, onde estive por 23 anos, a Tribuna de Minas. Foi a partir deste momento que percebi que as pessoas estavam com medo de falar, porque elas, do dia para noite, perderam o lugar de moradia, perderam tudo e passaram a ser mantidas pela Vale. Elas se sentiam reféns de dizer alguma coisa que desagradasse a mineradora. Percebi também que estas pessoas iam levar mais tempo para falar, então eu fiz a matéria para o jornal e voltei meses depois para contar esta história em um livro e fazer um caminho longo para conseguir me aproximar dessas famílias. Foi quando começou este processo de escuta.

Quanto tempo durou seu processo de escuta, de apuração?

Cerca de dois anos. Entrevistei 300 pessoas. O livro tem 200 personagens, entre famílias das vítimas, sobreviventes, profissionais da polícia, dos bombeiros. A gente conseguiu reconstituir através de um extenso processo de apuração tudo o que aconteceu, Todos os fatos que levaram ao rompimento daquela barragem. A gente conseguiu não só reconstituir a história, mas contar ainda como foram as 96 horas seguintes, após o rompimento. O livro traz toda essa riqueza de detalhes, conta quase que em tempo real as coisas que aconteceram. E muitas coisas aconteceram: era um cenário de guerra, tudo ao mesmo tempo e agora. Então, eu falo que este livro tem escala industrial, tudo nele tem escala industrial: o tamanho da dor das pessoas, o tamanho da devastação provocada e o tamanho do desastre que ainda está em curso, porque ainda temos uma cidade ainda enlutada, com aumento das taxas de tentativa de suicídio, com aumento no consumo de medicamentos controlados, com impacto da saúde humana ainda em avaliação, com todo o comprometimento do meio ambiente, do rio, da vegetação. Esse é um desastre ainda em curso.

Foram tantas perdas humanas e você viu tantas de perto, você consegue dimensionar o que mais te impactou?

Um dos capítulos mais importantes do livro, talvez o mais forte, uma das histórias mais fortes sobre a qual eu pude escrever e contar, é o capítulo chamado “A morte é avermelhada”, que se passa dentro do Instituto Médico Legal (IML), que vai dar visibilidade ao trabalho silencioso e incansável que os médicos legistas fizeram na luta para a identificação destas vítimas para que as famílias pudessem começar o processo de luto. Essa incursão ao IML foi tão importante que definiu o nome do livro. 

O nome do livro não é uma referência a tudo que foi arrastado pela lama, tirado do seu lugar, tudo foi levado pelo tsunami de lama, como pessoas, casas, animais?

Também, mas o nome “Arrastados” foi dado porque no IML eu descobri que os primeiros corpos que chegaram ao instituto não podiam ser identificados pela cor da pele, porque todas as vítimas tinham perdido a camada superficial da pele, que dá coloração tanto aos corpos brancos e pretos, em função desse arrastamento. Ficava exposto apenas o subcutâneo, que é branco.

Para mim isso é de um simbolismo tremendo, pois numa sociedade imersa no “racismo estrutural”, com todo o preconceito imposto pela cultura da branquitude, você tem pessoas que ficaram iguais na hora da morte, por isso o livro se chama “Arrastados”.

Algum outro aspecto marcante para você, além desta descoberta no IML?

Nessa incursão que fizemos, uma das coisas mais extraordinárias, dentro desse trabalho de identificação feito pelos médicos, foi uma técnica que eles usaram, na qual retiraram e recortaram a pele das mãos dos cadáveres em uma tentativa de recuperar a digital. Eles “calçavam” essa pele na própria mão, fizeram uma espécie de luva epidérmica para que pudessem fazer o reconhecimento por meio da leitura biométrica. Estes legistas, os bombeiros, foram muito além da farda, da função porque eles empregaram toda a técnica, conhecimento médico, porque exerceram diuturnamente a empatia. O que eles fizeram, durante meses e meses, foi uma aula prática de humanidade. Estas histórias descortinam a realidade e nos colocam dentro desta cena. A gente consegue acompanhar este trabalho e saber onde cada um estava no momento do rompimento dentro da mina Córrego do Feijão, estes homens e mulheres foram para lá salvar vidas, mas a maior parte do tempo, o que eles puderam fazer foi salvar a memória para que hoje a gente estivesse aqui contando esta história.

A gente conseguiu não só reconstituir a história, mas contar ainda como foram as 96 horas seguintes, após o rompimento

Você trabalha escrevendo sobre temáticas muito traumáticas, que retratam dor e sofrimento, como em “Todo dia a mesma noite” e “Holocausto Brasileiro”. Como você faz para lidar com este aspecto do seu trabalho?

Não tem como separar a jornalista, a mãe, o ser humano, a cidadã, a gente precisa de todas estas vivências para lidar com estas temáticas e entender o momento pelo qual a gente está passando. Quando a gente fala de Brumadinho, estamos falando da história do Brasil e o que nos fortalece é a compreensão do meu papel enquanto jornalista e enquanto escritora. É um papel que precisa, que faz lembrar, porque esquecer é negar história.

Qual a função de um trabalho como esse?

É você permitir que no futuro a gente possa olhar para trás, possa olhar para o nosso passado e entender o que aconteceu e se preparar para fazer diferente. É ter a consciência desse papel, da construção da memória coletiva do Brasil, um papel de transformação, de convocação, pois acho impossível ler este livro e terminar a leitura do mesmo jeito. Na verdade, o livro é uma convocação para que a gente conheça nosso papel, exerça nossa cidadania e exija a mudança das velhas práticas de um modelo de negócio que continua provocando tragédias porque está focado no lucro e não na vida humana.

Você também acompanhou o desenrolar das indenizações e contrapartidas institucionais para reparar danos materiais. Representantes da Vale foram ouvidos no livro?

A Vale foi procurada para o livro, ela sabia do livro, informamos o que estávamos fazendo e pedimos os dados. A maioria das pessoas que foram denunciadas pelo Ministério Público foram procuradas, através de seus advogados, inclusive a empresa alemã Tüv Süd, que atestou a segurança da barragem, e não quiseram se pronunciar, o que é uma pena, pois gostaríamos muito de entender a motivação de cada um. É claro que a Vale tem cumprido o papel dela nas reparações, com as indenizações bilionárias que foram pagas até aqui ao Estado, as indenizações de cunho trabalhista, que já ultrapassam R$ 2 bilhões, mas é o mínimo que se espera de uma empresa deste tamanho e que foi causadora de um desastre deste. Mas o mais importante desta história, sobre a qual nós, e todos os envolvidos, temos que refletir é que não existe reparação para a morte. A morte é irreparável e, isso é uma coisa que a Vale, com todo o dinheiro dela, não conseguiu sanar.

Mas o mais importante desta história, sobre a qual nós, e todos os envolvidos, temos que refletir é que não existe reparação para a morte. A morte é irreparável e, isso é uma coisa que a Vale, com todo o dinheiro dela, não conseguiu sanar

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