O que seria mais um filme infantil com a floresta amazônica como pano de fundo ganha um extraordinário vigor nos 20 minutos finais de “Ainbo – A Guerreira da Amazônia”, em cartaz nos cinemas.

O clímax da história está fundamentalmente na busca da verdade, um tema que pode parecer abstrato para crianças pequenas, mas que imageticamente é bem suprido com as situações que põem uma indiazinha diante do Yakuruna.

O vilão é um espírito maligno que tem destruído a floresta a partir da manipulação do homem branco, mas a sua construção vai muito além, recebendo outras leituras que podem muito bem ecoar no Brasil de hoje.

Num momento em que se discute profundamente a falta de ética ao, insistentemente, faltarem com a verdade, distorcendo informações importantes para a população, “Ainbo” traz essa questão de maneira muito pungente.

Apesar de se apresentar como vilão, Yakuruna representa, na verdade, uma conjunção de forças que conduzem alguém, por motivos particulares, a se deixar levar por pensamentos egoístas. Esse é o grande tema da animação feita por Holanda e Peru.

O componente real não está presente apenas em Yakuruna. Outro personagem indígena que também se prontifica como vilão e, ao longo da narrativa, ganha uma abordagem muito rica, envolvido em culpa e ressentimento.

Dessa forma, não há um malfeitor na acepção clássica do termo. Mas sim personagens que se deixaram contaminar após serem tomados por frustrações diversas. Uma maneira singela e bonita de dizer que não precisamos criar muros entre nós.

Num filme em que as personagens femininas dominam, é interessante observar a jornada de Ainbo na busca de uma solução para preservar a sua tribo. Ela nunca toma ações heroicas, como exemplos de coragem e sabedoria.

A sua diferença é não temer em ouvir a opinião do outro, não pensar duas vezes antes de ajudar, valer-se sempre do coletivo e respeitar as tradições, mesmo quando elas parecem distantes da realidade, quando entram dois guias espirituais na forma de divertidos bichos da floresta.

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