Em cartaz nos cinemas, a animação japonesa “Belle” carrega, especialmente em seu segundo ato, várias referências ao clássico “A Bela e a Fera”, apresentando uma abordagem muito distante do tom ingênuo e fantasioso exibido no desenho da Disney indicado ao Oscar há três décadas.

O tema da “fera” hostilizada por sua aparência, que se vale do enfurecimento para afastar os curiosos, é transportado para uma discussão muito atual sobre a criação de identidades completamente fake e idealizadas no ciberespaço.

Apesar de sua estética transitar pelo universo da ficção científica, ao vislumbrar o que poderá ser o Meta – o metauniverso que está sendo desenvolvido por Mark Zuckerberg -, a questão é tratada com a seriedade e a preocupação que o tema vem despertando.

Dentro do programa “U”, um mundo virtual que reúne praticamente toda a população da Terra, com cada um estabelecendo uma identidade própria e, não raro, diferente de sua realidade, a garota Suzu encontra a oportunidade de vencer os seus medos.

Após perder a sua mãe e conviver com um pai ausente, Suzu nos é mostrada como uma adolescente severamente traumatizada, sem conseguir estabelecer relações sociais na escola, a não ser por uma nerd que lhe apresenta “U”.

Embora suas expressões não sejam muito diferentes dos exageros comuns aos animes, o perfil psicológico da protagonista é bastante realista, aprofundando-se na falta de autoestima de Suzu, que se vê sempre num patamar inferior aos outros.

No programa, ele vira uma estrela, ao exibir seus talentos vocais, despertando a curiosidade de todos sobre a verdadeira identidade, cada vez mais ameaçada de ser revelada quando Suzu se aproxima de uma criatura misteriosa.

Os agentes responsáveis pela ordem em “U” passam a caçá-lo, representando um tipo de ordem social eivado de preconceitos. Mesmo no programa, existem limites muito bem definidos e, qualquer passo fora dessa linha, é indicativo de exclusão.

Um primeiro debate que “Belle” suscita é sobre as redes sociais, em que se é permitido (e até estimulado) a falsear ou mentir o que não é, desde que não transgrida princípios elementares, como pôr em xeque a própria legitimidade daquele universo.

A aproximação com as redes sociais se torna mais palpável nos minutos finais, quando a criatura é desmascarada. Como no conto de fadas, o roteiro acentua, de forma sensível, o verdadeiro papel dele como vítima de uma sociedade incapaz de enxergar a realidade.

Diferentemente do filme da Disney, a versão japonesa não entrega a concretização do verdadeiro amor, mas sim um mal-estar provocado por uma falsa ideia de que você “pode criar uma outra versão de si mesmo e mudar o mundo”, geralmente para pior.