Há quatro décadas foi criada a Secretaria de Cultura do Estado, no governo de Tancredo Neves. O primeiro a ocupar o cargo foi o dramaturgo e ator Jota Dangelo, um dos grandes nomes da cena teatral em Belo Horizonte, criador do Teatro Universitário da UFMG e do grupo de Teatro Experimental, na década de 1950.

Ocupante de uma cadeira na Academia Mineira de Letras, desde setembro do ano passado, Dangelo lembra como a secretaria se tornou um divisor de águas na cultura do Estado, especialmente para o teatro, durante muitos anos dependente do “entusiasmo, da dedicação, do esforço e do idealismo” dos seus profissionais.

Ele também está ligado a muitas outras conquistas, como superintendente do Palácio das Artes e criador e carnavalesco da escola de samba Qualquer Nome Serve, em São João del-Rei. É nessa cidade, sua terra natal, que ele vive hoje, dedicando-se à “leitura de uma boa parte de livros da minha biblioteca que ainda não li”.

O senhor é autor do livro “Os Anos Heróicos do Teatro em Minas”, que compreende uma história que vai de 1950 a 1990. Como resume a cena teatral naqueles primeiros anos?
A atividade, em boa parte daquele tempo, foi pioneira. Basta dizer que a Secretaria de Estado da Cultura só foi criada em 1983, por Tancredo Neves, quando assumiu o governo de Minas. Como parte da Secretaria de Educação, a Cultura não recebia o que devia receber e, mesmo mais tarde, quando Francelino (Pereira), no governo do Estado, criou a Coordenadoria de Cultura, este órgão tinha pouco orçamento próprio e muita limitação nas suas atividades. A criação e funcionamento da Secretaria de Cultura deu novo ímpeto às artes cênicas. Naqueles tempos, entre 1950 e 1983, boa parte das atividades artísticas em Belo Horizonte dependeu do entusiasmo, da dedicação, do esforço e do idealismo dos seus praticantes que se reuniram em grupos teatrais.

Como se deu a criação do Teatro Universitário da UFMG, o primeiro curso de formação em artes cênicas na capital mineira?
Ele foi uma iniciativa de estudantes universitários que estavam na batalha pelo desenvolvimento das artes cênicas em BH. Entre eles, Carlos Kroeber, João Marschner e Ítalo Mudado. Eu estudava Medicina e estava nessa turma. Falávamos do assunto em entrevistas aos jornais e tínhamos o apoio de intelectuais e letrados da época. Mas levou tempo. Houve uma tentativa frustrada em 1952, e foi só em 1956 que o TU foi criado oficialmente pelo reitor da UFMG Lincoln Prates.

Dangelo também foi presidente da Belotur, de 1989 a 1992; diretor-presidente do BDMG Cultural, de 2003 a 2011; membro do Conselho Estadual de Política Públicas, entre 2012 e 2014, representando o setor de artes cênicas de Minas Gerais

Um pouco antes, o senhor ajudou a criar o “Show Medicina” em 1954, enquanto cursava Medicina na UFMG. Foi a sua primeira experiência na direção teatral?
Como diretor teatral, foi a primeira experiência. Com a incerteza da criação do TU, já naquela época estávamos pensando em criar nosso próprio grupo teatral, que seria o Teatro Experimental. Alguém teria que assumir a direção e o indicado foi o Carlos Kroeber.

O senhor chegou a exercer a Medicina por muitos anos, alternando-se entre o teatro e a docência na UFMG. Apesar de o teatro lhe ocupar bastante, optou por seguir essa vida dupla até aposentar. Por quê? Vê uma relação entre as duas atividades?
Durante os dois últimos anos do meu curso de Medicina, em 1954 e 1955, fui interno do Hospital Vera Cruz, trabalhando como assistente do cirurgião Dr. Walter Boechat. Eu estava me preparando para a atividade cirúrgica. Foi exatamente em fins de 55, pouco antes de minha formatura, que a Fundação Rockefeller implantou, na Faculdade de Medicina da UFMG, a dedicação exclusiva no ensino médico e fui convidado a fazer parte da equipe como professor de Anatomia. Aceitei. Assim, pude me dedicar às duas ocupações da minha predileção: ensino médico e artes cênicas. Foi quando descobri que um bom professor tem que conhecer bem as técnicas de um bom ator para se comunicar com seus alunos.

Nessa época, o senhor teve a chance de integrar a companhia teatral de Cacilda Becker, uma das mais importantes do país, mas recusou. Qual foi o motivo?
O profissionalismo teatral não estava entre os meus objetivos naquela época. E havia outro motivo, bem particular: eu estava perto do meu casamento com Maria Amélia (Dorneles, também atriz), que ocorreu em 1957. 

Outro ponto fundamental para a criação do Teatro Experimental foi a necessidade de trazer textos que não eram encenados no país, não é verdade?
Exatamente. Tínhamos uma formação de leitura de artes cênicas muito moderna. Éramos entusiasmados com o experimentalismo teatral de (Samuel) Becket, Boris Vian, (Eugène) Ionesco. Numa visão um tanto preconceituosa, considerávamos a dramaturgia brasileira de muito pouca importância e nem nos interessávamos em ter contato com ela. Coisa de muita juventude...

No Teatro Experimental, vocês assumiram uma postura de resistência ao golpe militar. Uma das peças, “Oh! Oh! Oh! Minas Gerais”, quase foi censurada, devido a uma cena em que se lê uma carta de Juscelino Kubitschek no exílio. Como foi essa experiência?
A peça foi objeto de várias ações da Censura Federal e acabou sendo definitivamente censurada na proclamação do AI-5 em 13 de dezembro de 1968. Foi a primeira peça teatral proibida pela censura do AI-5 em todo o Brasil. O episódio que envolveu a carta de JK, que era lida na peça, correu em nossa apresentação em Brasília. No ensaio geral que era feito somente para os censores, a carta de Juscelino foi cancelada. Ou melhor: como nem falávamos que a carta era de JK, para que ele fosse identificado a leitura era acompanhada pela gravação de “Peixe-Vivo”, uma música de preferência do presidente, vinda de Diamantina e conhecida em toda Minas Gerais. Os censores colocaram a opção: ou retirávamos a leitura da carta ou líamos a carta sem tocar a música. Falamos com os censores que íamos cortar a música. E cortamos. Mas, à noite, na hora do espetáculo, lotado, a platéia cantou o “Peixe-Vivo”. É claro que, na véspera da estreia, tínhamos divulgado pelo rádio e TV que, numa atitude absurda, tinham censurado uma música do folclore de Minas.

O senhor talvez seja o principal nome do teatro mineiro a se envolver com a política cultural em Minas. Como se deu esse interesse?
O interesse veio quando Tancredo Neves, tio da minha mulher, partiu para disputar o governo de Minas em 1982. Ele tinha feito isto também em 1960. Naquela ocasião, perdeu para Magalhães Pinto, mas em 82 foi vitorioso. E daí em diante as circunstâncias levaram-me para o serviço público na área cultural.

Durante 30 anos, o senhor teve forte ligação com o Carnaval, especialmente em São João del-Rei. Como presidente e carnavalesco da Qualquer Nome Serve, teria criado um dos mais importantes carnavais de rua do interior do país. O que levou a escola a ter esse status?Minha relação com o Carnaval é coisa de uma vida. Antes de criar a Escola de Samba Qualquer Nome Serve, eu me envolvi com a decoração carnavalesca dos salões dos clubes são-joanenses. Mas foi em Juiz de Fora, nos primeiros anos da década de 50, que comecei a frequentar as escolas de samba daquela cidade e acabei me apaixonado por aquela atividade. Em 57, criei a Qualquer Nome Serve. Até o ano 2000, como carnavalesco, cumpri a minha paixão.

O senhor foi o primeiro presidente da Confederação Nacional do Teatro Amador, fundada em 1974. Qual foi a principal razão para a criação da entidade, a única reconhecida pelo governo federal?
A criação da Confenata foi uma iniciativa do Serviço Nacional do Teatro (SNT), cuja equipe era ideologicamente de esquerda. O teatro profissional só existia realmente no Rio e em São Paulo. No resto do Brasil prevalecia o teatro amador. Na década de 70 começou a batalha para a criação dos sindicatos de atores e técnicos em artes cênicas. Era o caminho da profissionalização, mas a atividade ainda era amadora e não havia nenhum órgão que representasse esses “amadores” junto ao SNT. A Confenata cumpriria este objetivo e, por causa dela, foram criadas as federações estaduais. Tudo isto é passado. A evolução seguiu outros rumos e a atividade teatral profissionalizou-se, embora ainda enfrente, nesta condição, muitos obstáculos.

A sua maior contribuição como superintendente do Palácio das Artes foi a criação do Teatro Ceschiatti? Ele foi pensado para atender uma demanda de teatro experimental na cidade?
Eu só permaneci pouco menos de um ano à frente da Fundação Clovis Salgado e o Palácio das Artes. Mas consegui criar o Teatro Ceschiatti, já que o Grande Teatro não era o mais adequado para os grupos teatrais mineiros, a não ser em certas circunstâncias. Mas não houve nenhum objetivo especial quanto ao repertório a ser encenado no local.

Qual a avaliação que o senhor faz do período como secretário de Cultura durante os anos de 1985 e 1986?
A criação da Secretaria de Cultura foi fundamental, não só para as artes cênicas. A criação das leis de incentivo cultural foram da mais alta significação e a são até os dias atuais. Evidentemente, é preciso reconhecer que a importância que se dá à cultura, na voz de legislativos e executivos governamentais, tem muito de retórica, mas na prática a cultura continua recebendo verbas oficiais bem aquém das necessidades, antes, agora e sempre. Mas é só quando a gente chega ao poder público que começamos a entender que este é um problema de solução complexa e difícil de resolver: as prioridades essenciais das comunidades exigem muito mais do a gente pensa quando não está no governo. E o orçamento é um só.

O senhor e sua esposa estiveram à frente da Casa de Cultura Oswaldo França Jr. de 1990 a 2000. Por que a entidade não prosseguiu?
Há uma hora em que a idade começa a fazer suas exigências. O ciclo vital começa a dar sinais de alerta. E então tomamos precauções agindo com mais calma e repertório reduzido de atividades. Hoje, Maria Amélia e eu estamos radicados na nossa terra natal, São João del-Rei. Mas não estamos completamente afastados: criamos a nossa Casa de Cultura no Centro Cultural Feminino, fundado por Maria Amélia em 1986, com sede própria e um Teatro de Bolso para cem espectadores.

No ano passado, o senhor assumiu uma cadeira na Academia Mineira de Letras justamente no lugar de Ângelo Machado, seu parceiro no “Show Medicina”. Qual é o sentimento ao fazer esse reencontro com o início da carreira?
Uma honra, sem dúvida, ocupar justamente a cadeira que foi de Ângelo Machado, meu amigo-irmão de toda a vida, parceiro do “Show Medicina”, neuroanatomista de talento incomparável, brilhante dramaturgo infantojuvenil e adulto. Claro que teria sido bem melhor conseguir a aprovação da Academia numa outra vaga que não dignificasse a falta de Ângelo Machado. Mas foi uma honra e uma satisfação inigualável a minha eleição para a AML, assim quando fui eleito como membro honorário da Academia Mineira de Medicina, pela minha atuação como professor na Faculdade de Medicina da UFMG.

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