São 30 segundos apenas. Mas o suficiente para chamar a atenção para o trabalho da produtora mineira Apiário, responsável pelos oito episódios de curtíssima duração de “Poderoses”, série que vem ocupando os intervalos da MTV com questões como homofobia e assédio.

Apesar do tempo exíguo, a mensagem está bem clara nos desenhos, onde situações desagradáveis de preconceito e abuso ganham uma reviravolta positiva. “Condensar essas informações em meia página de roteiro foi o mais difícil”, confessa o produtor-executivo Erick Ricco.

Um projeto sobre violência sofrida por mulheres foi o que os levou a bater na porta do antigo canal da música. “A Thereza Nardelli criou uma série chamada ‘Zangadas’ e, durante uma rodada da Minas Gerais Audiovisual Expo, no ano passado, apresentamos para a MTV”, lembra.

Ricco salienta que “Zangadas” estampava o formato de pílula e o tipo de humor surrealista que a emissora estava buscando para uma campanha sobre orgulho e diversidade LGBTQIA+. “Adaptamos o projeto e formamos uma equipe só com pessoas dessa comunidade”, destaca.

A direção passou a ser dividida por Thereza e Etienne Tavares, pessoa trans não binária. “Sentimos que era fundamental para o resultado. Neste processo, percebemos a falta de diversidade no mercado de animação, por isso capacitamos duas pessoas para integrar a equipe”, afirma. 

Entrevistas foram feitas para que o roteiro pudesse representar toda a diversidade LGBTQUIA+, com o primeiro tratamento dos roteiros passando por uma revisora mexicana do braço latino-americano da MTV. “Foi tudo muito tranquilo, com a emissora nos dando bastante liberdade”.

Animação MTV

Etienne Tavares é diretor da série produzida pela Apiário, assinando ainda a direção de animação. Thereza Nardelli é criadora, diretora e responsável também pela direção de arte

Um dos pedidos do canal era para que os episódios não tivessem diálogos. Nesse sentido, a referência foi “Pingu”, série de animação infantil de origem suíça-britânica, protagonizada por um pinguim e sua família. “É como uma espécie de tirinha audiovisual”, analisa Ricco.

Referências

Para o produtor-executivo, a feitura de “Poderoses” teve um prazer extra ao se retomar as séries de interprogra-mação que eram muito comuns na programação da MTV nos anos de 1990 e início dos 2000. “E nós bebemos nessas referências estéticas para fazer a série”.

Naquela época, entre os programas estavam “Garoto Enxaqueca”, estrelada por um mal-humorado, e “Liquid Television”, ponto de partida para animação experimental e autoral. “Foram eles que formaram o nosso olhar. Fazer a série é como um sonho de adolescente realizado”.

Ele comemora o retorno positivo do público. “A série trata de um tema muito relevante e o faz de uma maneira divertida, com estilo gráfico próprio. Ainda que não seja um projeto grande, conseguir realizar uma venda direta para um canal é algo bem raro no nosso mercado”, pondera.

Fazer uma animação a partir de venda direta é conhecido também como “dinheiro bom”, saído dos cofres do parceiro financeiro. É o que permite queimar etapas burocráticas inerentes aos editais públicos e realizar uma produção como “Poderoses” em apenas quatro meses.

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