Vários personagens com superpoderes morrem nos primeiros 15 minutos de “O Esquadrão Suicida”. Não é bem um spoiler, levando-se em conta o caráter iconoclasta da franquia baseada nos quadrinhos da DC Comics, mas ajuda a entender a construção do roteiro dessa sequência, principal estreia nos cinemas.

Enquanto vários filmes buscam uma huma-nização de seus heróis e vilões, no sentido de exibir falhas importantes para mostrar um bem-vindo lado contraditório, apontando razões psicológicas reais, a essência de “O Esquadrão Suicida” está no que pode haver de pior nessa desmistificação, ultrapassando a linha do aceitável.

O divertimento reside neste ponto de partida invertido: eles representam a escória humana, tanto por suas intenções mundanas quanto pela incapacidade de viverem em sociedade, com as habilidades se tornando mais um fardo. Não entendem que papel tem, não buscam ser melhores do que são e só agem porque são obrigados a tal.

O que tiramos disso é um misto de sentimento de pena com ares de crueldade: quanto piores são, mais interessantes se tornam, assim como nas comédias sobre losers. Como são vilões e sem qualquer função aparente, a trama desperta um quê mórbido no espectador, que torce por mais cenas de violência exagerada.
Diferentemente das comédias com protagonistas fracassados, o filme não se satisfaz somente em mostrar o quão bons somos ao permitir que, em determinado momento, eles sejam “promovidos” na sociedade, entendendo o lugar que podem ocupar, seja pelos sentimentos nobres que carregam ou pelo poder de superação.

O que nos faz lembrar de Snake Plissken, personagem do filme “Fuga de Nova York”, em que “O Esquadrão Suicida” parece se inspirar. Ele é um criminoso levado a uma Nova York do futuro, cidade transformada numa prisão a céu aberto, povoada por pessoas que os governantes querem se livrar. Sua missão é salvar o presidente cujo avião pousou no local.

O universo de códigos morais se revela ainda pior, não só pelo descaso das autoridades naquelas pessoas “sem salvação”, mas como esses são manipulados de acordo com a política de ocasião. Por trás de tantas cenas hilárias e descabidas, questionamos se os protagonistas seriam mais detestáveis do que aqueles que obedecem às regras sujas cegamente.

Nesse sentido, a autoridade representada por Viola Davis ganha relevância, como um importante contraponto. O que ajuda a explicar a razão dessa sequência superar o filme original, lançado em 2016. No primeiro, a anarquia e o humor negro eram um fim neles mesmos, como se vermos o fiasco de seres poderosos fosse o suficiente.

Além de apresentar uma história mais consistente, a escolha de James Gunn (de “Os Guardiões da Galáxia”) para a direção faz de “O Esquadrão Suicida” um parente bem próximo do filme da concorrente Marvel, dosando com precisão os elementos cômicos e de ação a partir de um grupo de características contrastantes, emoldurados por um trilha pop.