Max Cavalera se despede, durante a conversa num aplicativo de conversas virtuais, com um “A gente se vê aí com Mate Couro e pão de queijo”. Além de prometer um show para breve em Belo Horizonte, sua cidade natal, a frase do fundador do grupo mineiro de metal Sepultura é reveladora do aperto no coração que sente ao falar da terrinha – em especial, do bairro Santa Tereza, onde a sua história musical começou.

“Estou em Phoenix, no deserto do Arizona, mas com muita saudade. Não vejo a hora de estar em BH para comer pão de queijo e tomar um Mate Couro”, afirma, sem medo de fazer propaganda de marca de refrigerante. Aliás, ele faz até um apelo à fabricante. “Não tem um jeito de eu ser o garoto-propaganda e ganhar umas (garrafas) de graça para levar para turnê? Botaria um adesivo na guitarra. Não tem nada no mundo melhor do que o sabor do Mate Couro”, diverte-se.

A volta para BH (ele não vem à capital mineira há três anos) não tem data para acontecer, mas Cavalera sabe bem o que levar na bagagem: o show do grupo que criou recentemente ao lado do seu filho Igor, Go Ahead and Die. O disco acabou de sair pela Nuclear Best Records e tem cheiro de nostalgia, carregado de influências de músicas hardcore que ouvia nos anos 80, em Santa Tereza. Por sinal, Igor nunca colocou os pés no país. “Quero mostrar para ele principalmente o calor do público brasileiro, que é fenomenal”, afirma.

Você criou o Sepultura ao lado irmão, o baterista Igor Cavalera. Agora acaba de formar uma banda de metal ao lado do filho, que carrega o mesmo nome – Igor Amadeus Cavalera. Como está sendo essa sensação?
É um sonho velho que eu tinha. Desde que o Igor nasceu. Ele pegou diabete quando tinha um ano de idade. Eu que fazia a vacinação nele todo dia e ficamos muito juntos. Fui o professor dele de metal. Botei tudo que eu queria que ele ouvisse. Tem um lutador na Rússia que cresceu com o pai dele ensinando-o a lutar, chegando a fazer com que o moleque lutasse com um urso. Acho que fiz algo parecido. (Ele passou) Todos esses anos ouvindo música, em turnê comigo... Tem vídeos dele dormindo com Ozzy Osbourne cantando lá no fundo, no palco. Tive o tempo certo, que foi durante a pandemia, quando não estava rolando show, para fazer com ele um disco que tem todas as influências dos anos 80, da época em que eu morava em BH. Eu ouvia bastante hardcore e metal. Misturamos os dois em Go Ahead and Die. Eu quero que as pessoas tenham, ao escutarem, o sentimento de que esse disco está na coleção deles desde 1987, só que saiu ontem. É uma coisa meio nostálgica. Mas com as letras falando do mundo de agora.

As letras falam de questões universais, como pandemia e racismo. Como foi a construção desse repertório?
Muitos assuntos foram criados a partir de coisas que aconteceram aqui nos Estados Unidos. Logicamente, a epidemia é no mundo inteiro. O nome da primeira música, “Caminhão de Corpos Mortos”, tirei de uma revista em que um cara falava exatamente de um caminhão de mortos na Itália. E tinha uma foto que mostrava o veículo. Ainda era o começo da epidemia, que estava bem ruim na Itália. O próprio nome da banda, bem forte e meio negativo, é uma referência aos governantes e políticos que não estão nem aí se o povo está morrendo. Eles não têm nenhuma consideração pelos seres humanos. Então tentamos fazer músicas sobre coisas atuais e que estão ao nosso redor. Há uma fala da fronteira, com os meninos enjaulados e separados da família. Outra sobre moradores de rua. E também uma sobre os cultos religiosos, que têm muito aqui nos Estados Unidos, assim como no Brasil. São coisas que todo mundo pode se conectar no disco.

De todos os seus trabalhos, esse é o que contémuma maior carg a de crítica social. Você concorda?
Fizemos algo mais baseado na atitude mais punk, mais hardcore, que é falar desses assuntos. Alguns deles são meio tabus, do tipo “não põe a mão nisso, não”. E a gente decidiu pôr a mão na fogueira, na chama mesmo. Logicamente eu já sabia que teria gente que não iria gostar, incomodando algumas delas. No final do dia, você tem que fazer o que sente que é certo, o que está no seu coração. Eu sempre fiz as músicas desta maneira. Minha fase mais política, na época do “Chaos A.D.”, tinha música falando de Israel e Palestina. Eu fiz “Refuse/Resist”, que é uma música de protesto. Mas você está certo: esse disco é o mais direto, em termos de mensagem social ao público. E foi feito com meu filho, que é bem entrosado com o que acontece no mundo. É legal ver o que ele está sentindo, como uma pessoa de 25 anos. E ele me lembra o Max Cavalera de 25 anos, até fisicamente. Foi muito legal fazer esse disco com ele! Espero que dê para rolar alguns shows. Gostaria de poder levar esse disco para o Brasil, especialmente para Belo Horizonte. Mostrar para o Igor onde eu nasci e cresci, além de tocar e sentir o calor do público.

Ele nunca foi ao bairro de Santa Tereza?
O Zyon (outro filho de Max) teve festa de aniversário de dois anos aí. Ele foi algumas outras vezes comigo, passeando. O Igor, se não me engano, nunca conheceu BH. Mas quero fazer a tour inteira com ele. Gostaria muito também de mostrar o interior, como Ouro Preto, que adoro, Mariana, São João del-Rei. Passei muitas férias em São João quando era moleque. Tinha um tio que morava lá. É uma cidade maravilhosa. Em Ouro Preto, fiz muita zoeira. Carnaval lá era muita cachaça e zona. O bicho pegava lá. Quero mostrar para o Igor principalmente o calor do público brasileiro, que é fenomenal. Os próprios músicos daqui dos Estados Unidos e da Europa sempre falam: “O público brasileiro é f...”. E é mesmo. É diferente. A temperatura muda quando chegamos ao Brasil. Não dá para explicar... Gostaria muito de mostrar isso para o meu filho.

Como foi o trabalho de composições? Igor escrevia e você colocava a harmonia?
Não é nenhum mistério que eu não goste de fazer letras. Nunca gostei. É meio como fazer dever de casa, aquela coisa meio tediosa. Não é tão ruim assim, mas é meio... O que eu gosto são os sons dos riffs, da guitarra... Eu pego a minha guitarra e passo horas fazendo riffs. Tem dia, por volta de duas horas da manhã, que a minha mulher chega na sala de casa e pergunta: “Você vai ficar tocando guitarra a noite inteira?”.... O Igor escreveu 70% das letras. Tirando a primeira faixa, que foi uma ideia minha inspirada na revista, a maioria das ideias foi dele. Muito legal esse envolvimento dele. Queria que ele estivesse assim, para sentir todo o lance da produção de um disco. Oficialmente, é o primeiro que ele faz, da composição ao estúdio. Para mim, a parte mais legal foi criar o projeto com ele. A gente tem uma casa no deserto, cercado de montanhas, cactos, cobras e lobos... Nem tem wi-fi direito, ruim para c... A gente vai para lá e fica meio que forçado a fazer coisas musicais. Com isso, ele acabou criando muita música. Fizemos uma rotina de escutar música durante o dia, fazer as demotapes a tarde. E à noite a gente ficava vendo filme de terror em preto e branco, a partir de uma coleção dele. A gente até tentou achar um filme que eu tenho, do Zé do Caixão... No próximo disco, vou mostrar a coleção do Zé do Caixão para ele. Acho que oIgor vai gostar muito. Esse lance de ir para o deserto à procura de iffs e ideias, o deserto é muito bom para isso. Um lugar perfeito para achar essas coisas.

Sobre a sonoridade do disco, ela é...
(interrompendo) Pode falar, podre (risos). A gente quis gravar um disco que fosse feito igual aos de 86, 87. Por exemplo, o “Schizophrenia”, que é a melhor referência. A gente gravou o disco em BH e tudo em analog, sem click track para ficar encaixando com o tempo. Não tinha tecnologia, nada disso. E fizemos um trabalho maravilhoso. A ideia que passei para o Igor e para o baterista foi essa: em 87, fizemos discos poderosos sem tecnologia, vamos fazer o mesmo. Vamos recusar toda a tecnologia que está à nossa frente. Fizemos num estúdio bom, cheio de coisas lá para usar e não aproveitamos nada (risos). Isso foi legal. Passamos pela tentação de usar todas essas coisas digitais. O resultado foi bem “podreira”, bem “old school”. E tem aquela coisa do “power trio”, como Motorhead e Venon. Tem uma coisa que acontece quando são apenas três pessoas fazendo barulho. Acaba sendo mais barulhento do que quatro, cinco, seis, sete (pessoas)... A gente tem um apelido para esse tipo de metal, que é “caveman”. Metal caverna, cavernoso, que não tem muita técnica e solo. O disco inteiro só tem um solo que eu faço, que é na penúltima música. São só riffs cavernosos, agressão e energia. É a receita desse disco.

Por falar em tecnologia, até pouco tempo atrás você não usava redes sociais? Continua assim?

Pau que nasce torto, morre torto. Não tenho celular e este computador que estou fazendo entrevista com você agora é da minha esposa. Mas eu sei que se tem que ter essas coisas. Não dá para você virar totalmente um homem caverna e recusar tudo isso, porque acaba até lhe prejudicando. Mas gosto dos meus vinis e, se eu gosto de uma banda, eu compro o CD e o vinil. Não gosto de fazer upload na internet. Às vezes ouço primeiro no Spotify, mas se eu gostar mesmo vou querer comprar, para ter o lance na minha mão. Tem coisas legais de se fazer com a tecnologia, como o “Max Tracks” que faço toda terça e sábado. Nele, eu apareço sentado no sofá d a minha casa, com a minha filmando pelo celular. Fico tocando guitarra e falando besteira os fãs, vomitando no Eddie Vedder (vocalista do Pearl Jeam), fazendo o Lemmy (bandleader do Motorhead) ficar puto, lembrando a turnê do Ramones, falando sobre começou a ideia de fazer um determinado riff... Os fãs adoram e é de graça, né? Então acabo usando um pouco da tecnologia, mas continuo um homem-caverna no coração.

Como foi se reencontrar, ainda que virtualmente, com o Jairo Guedz - fundador do Sepultura - para tocar o clássico "Anticrist"?

Cara, a gente tem uma história tão rica musicalmente. Na verdade, nem sei quantos discos eu tenho. Devem ser quase 30. Tem tanta coisa legal que o pessoal sente falta. É o lance da nostalgia. Um dia o Igor me ligou, com essa ideia de fazer para o canal dele, “BenneathofDrums”, o “Anticrist” com o Jairo. O “Antcrist” é a primeira música que a gente fez no Sepultura. Ela foi o abridor das portagens para a gente. Nada teria acontecido se não tivéssemos feito essa música. O Igor é o inventor do blastbeat, que hoje é super popular no metal extremo. Ele fez isso antes do Napalm Dead, antes de todos os bateristas. Às vezes, ele não é reconhecido da maneira certa. Ele é um baterista muito criativo. O Igor é muito f..., muito criativo e original. As pessoas acabam falando mais de bateristas técnicos. Nada contra eles, mas ser um baterista original é muito mais difícil e mais importante. Pô, o som da regravação ficou muito legal. Uma sonzeira. Ficou de arrepiar mesmo. Vamos ver se rola mais coisa para o futuro. A gente botou a semente e vamos ver o que cresce disso aí. Eu e o Igor estamos sempre buscando coisas para fazer com o material de antigamente. É um pé no passado e outro no futuro. A gente não pode esquecer de onde veio tudo isso. As nossas raízes são muito importantes. Essa “Anticrist” ficou maravilhosa, muito bem-feita. Todo mundo que ouviu adorou. Foi um dos lances mais legais que a gente fez ultimamente.

Depois de lançar o álbum do Go Ahead and Die você pretende retomar algum de seus outros projetos musicais?
Cara, eu vou pulando um para o outro. É uma loucura, um caos desorganizado na minha cabeça. Vai um para o outro cambaleando.... Não tenho muito esse lance de preparação. Não sei o que val rolar no ano que vem. O que vier, estou pronto. Talvez seja Cavalera, talvez seja Soulfly. Mais provável que seja Soulfy, que já está na hora de fazer coisa nova. Mas tem coisa para fazer com o Igor, o Go Ahead and Die, que gostaria muito de levar para turnê... Trabalho não falta, graças a Deus. O principal é que está todo mundo com saúde. A epidemia não afetou muito a gente. Já tem turnê do Soulfly nos Estados Unidos, que começa em 20 de agosto. Os bilhetes estão vendendo que é uma loucura. Parece que o pessoal nunca tinha visto um show antes (risos). O último show foi no México, com o Soufly, num festival chamado “HellandHeaven”. Na abertura, tocamos eu e o Igor, com o “Returno f Roots”, tocando o disco inteiro de “Roots”. Isso foi em fevereiro de 2020. Eu passei meu primeiro aniversário em 25 anos na minha casa, no ano passado. Todos os meus outros aniversários foram em cima do palco, em turnê.