Com mais de 25 anos de história, o Tuatha de Danann se tornou um dos orgulhos do metal mineiro e um dos principais representantes do gênero em âmbito nacional, alcançando mercados na Europa e outras partes do mundo. A fórmula para tanto reconhecimento está na união de elementos do estilo com a musicalidade da música celta, e muito dessa receita veio de seu líder, vocalista e multi-instrumentista Bruno Maia.

Ao longo de sua trajetória, no entanto, Maia se viu na “obrigação” de abrir o leque, já que a música celta e o heavy metal não eram as únicas paixões musicais. Dessa necessidade, que acompanha inquietos e prolíficos artistas, surgiu seu primeiro álbum com o Braia, “...e o Mundo de Lá” (2007), trazendo algumas das características de sua carreira até então, mas com um forte viés da MPB e flertes com jazz e outros estilos.

Quatorze anos depois, eis que surge o segundo rebento deste projeto, não à toa batizado de “e o Mundo de Cá” (2021). Neste mais novo trabalho, a musicalidade vai além, em um mergulho na música mineira e brasileira e seus regionalismos. E, apesar de ser um disco instrumental, cada faixa se apresenta como um capítulo da história e da cultura do Estado (e do país).

Esse preâmbulo, no entanto, é incapaz de explicar o processo que culminou em “...e o Mundo de Cá”. Então, o Hoje em Dia procurou o próprio arquiteto dessa obra para dar alguns detalhes a respeito de um dos melhores álbuns nacionais do ano.

Confira a seguir a entrevista com Bruno Maia:

Bruno Maia

Creio que a primeira coisa a perguntar é com relação ao título do álbum "...e o Mundo de Cá", que alude ao primeiro disco do Braia, "...e o Mundo de Lá". A escolha do título vai além desse complemento entre os dois álbuns?
Tem sim esse contraponto e tem outros pontos, né? No primeiro álbum, o conceito estava muito ligado ao imaginário céltico e mágico. O ‘mundo de lá’ pode ser visto como o mundo encantado, dos espíritos ou mesmo aquele mundo de lá, das lonjuras. E mesmo as referências literárias eram de autores irlandeses como James Joyce e W.B.Yeats. O título do primeiro foi inspirado num conto do Guimarães Rosa, “A Menina de Lá”. Já este álbum novo tem todo seu enfoque em motes do imaginário, da memória e da história de Minas Gerais; não tinha título mais propício para o trabalho.

Falando então deste novo rebento, como se deu o processo de composição do álbum? E como foi a gravação do disco neste momento de pandemia?
Essas músicas são antigas, viu? Comecei a mexer no disco em 2015 e parei em 2016, só retomando no fim de 2020, pois já tinha grande parte do disco gravada. O que mudou materialmente foi que compus grande parte do material na viola. Eu não sou violeiro tradicional, mas tento explorar o instrumento de formas que me satisfazem, e acho que isso trouxe muita coisa legal para a obra em geral, pois muita coisa partiu da viola. Outra coisa legal e diferente para mim neste trabalho foi que a bateria e o baixo do disco foram gravados por músicos de outros cenários, que tocam estilos diferentes, do funk, do soul, da black music e muita coisa brasileira também. Isso fez toda a diferença em relação às diferentes possibilidades de abordagens que dávamos a cada som.

Pergunto isso também por conta da quantidade de convidados no álbum. Como se deu essa questão e o quanto cada um deles agregou ao som do Braia?
Então, tem uma banda meio que fixa que fez o disco: o Fabrício Altino na bateria, o Anderson Silvério no baixo, o Alex Navar na gaita de fole e o Rafael Castro nos teclados. Mas tivemos uns convidados legais, como o Edgard Brito nos teclados de uma faixa, o Kiko Shred na guitarra de outra, o Felipe Andreoli, do Angra, em ‘Besouro na Esquina’, entre outros. Esses convidados deram um brilho legal à obra final, claro, mas eu atribuo a riqueza do álbum muito na cozinha do disco; esse pessoal abriu minha cabeça demais em estúdio.

É um trabalho instrumental, porém, que traz todo um conceito, que vai da capa à questão histórica que cada faixa carrega. Como foi para você, que adora ler e pesquisar sobre a história de nosso país e de outros povos, confeccionar um trabalho tão rico em detalhes e que alude a momentos históricos?
Foi uma satisfação imensa, pois consegui unir meu trabalho, que já me é um motivo de grande prazer e satisfação, a uma paixão minha que é a história de Minas Gerais. Não só a história, mas toda essa questão da memória e do imaginário mineiro em diferentes aspectos, pois aludimos no disco a Guerra dos Emboabas, a Inconfidência e mesmo o Quilombo do Ambrósio, que são fatos históricos, mas também abordamos Guimarães Rosa, o Clube da Esquina, o Sete Orelhas, entre outros.

Braia

"...e o Mundo de Cá", apesar de ter algo que remeta ao Tuatha de Danann em determinados momentos, por um motivo óbvio, já que é um projeto feito por você, carrega uma aura diferente. Qual o maior desafio e o maior prazer enquanto músico explorar diferentes horizontes nesses dois universos e ainda assim deixar claro que ali é você quem está tocando, ou melhor, que ali está sua marca?
Uai, fico muito satisfeito em ouvir isso, pois o que sempre buscamos, mesmo que inconscientemente, enquanto artistas, é ter nossa identidade artística e composicional reconhecida. Não digo que foi um desafio, até porque foi uma empreitada pessoal, que partiu de mim, e por isso foi bem natural. O que houve, na verdade, é que o horizonte que costumava me rodear enquanto criador foi expandido. As porteiras foram abertas ainda mais, e se eu consegui imprimir minha marca neste novo tipo de expressão musical é uma grande conquista.

Os últimos anos vêm sendo bastante prolíficos para você, que lançou dois álbuns com o Tuatha, sendo um em 2019 (“The Tribes of Witching Souls”) e outro em 2020 (“In Nomine Éireann”), e agora o segundo do Braia. De que forma você definiria esse seu período criativo?
Eu não sei dizer, mas acho que tem a ver com a idade avançando e uma talvez corrida contra o tempo. Depois teve esse lance da pandemia... Sei não, mas realmente nos últimos dois anos lancei três discos bem legais e já estou com a cabeça a mil para mais coisas.

Ainda nesse sentido, há chances de algo relacionado ao Kernunna ou a outro projeto seu em mente?
O Kernunna vai relançar agora o álbum “The Seim Anew” (2013), que estava fora de catálogo, em uma embalagem especial, com novas mixagens, nova masterização e uma música extra. É o que temos para a banda.

E, como não poderia deixar de ser, quais os planos do Tuatha para este e o próximo ano?
Em 2021, completam-se 20 anos do lançamento de nosso segundo álbum, o “Tingaralatingadun” (2001). Ele está para sair também com nova arte, faixas bônus, ao vivo, regravações, e também lançaremos até o fim do ano uma coletânea da banda. São muitos anos e sete álbuns de estúdio que achamos merecer uma antologia.

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