Não se espante ao ver um homem de fraque balançando uma batuta enquanto vários músicos, igualmente com roupas formais, tiram de seus instrumentos hits do grupo de grunge Nirvana que fizeram toda uma geração balançar a cabeça. É um cenário inusitado para uma orquestra clássica. Mas não para a sinfônica de Ouro Preto.

Neste sábado, às 20h30, a OOP faz valer mais uma vez o seu lema – “excelência e versatilidade” – com um concerto de atmosfera jazzística, em homenagem ao pianista Duke Ellington. É a primeira vez que a orquestra investe neste gênero, um ineditismo que virou tônica após o maestro e diretor artístico  Rodrigo Toffolo conduzir seus instrumentistas a sonoridades bem diferentes.

Foi assim quando apresentou uma seleção com músicas do A-Ha, grupo norueguês de rock dos anos 80. E vai se repetir neste ano com o Nirvana, banda liderada por Kurt Cobain e responsável pelo álbum “Nevermind”, que está completando três décadas. “A versatilidade não é só no papel. A gente coloca em prática. É um grupo que conversa com todos os nichos, do concerto, do rock”, afirma Toffolo.

Único
“Costumo dizer que esse é um repertório que só a gente faz. Isso porque ele é único, no sentido de que desenvolvemos dentro da orquestra, com arranjos feitos a partir do zero, assim como a escolha do repertório. A gente não sabe quanto tempo vai durar essa passagem por Minas Gerais, mas é um legado que estamos deixando”, afirma Toffolo, que fundou a orquestra em 2000.

O regente pretende deixar tudo registrado em disco, mas precisará achar um espaço na  agenda já comprometida deste segundo semestre. Além do tributo a “Nevermind”, a OOP está fechando um projeto de apresentação com artistas da música popular brasileira. Algo que já foi feito com Alceu Valença, Edu Lobo e Ivan Lins. “Vamos receber convidados bastante especiais para tocarmos o repertório deles”, afirma.

"Tudo isso nos leva a uma paisagem sonora nova”

Não se trata apenas de levar o swing da música de Duke Ellington para o repertório da Orquestra Ouro Preto. As novidades se ampliam, como a entrada de novos instrumentos e o que o maestro Rodrigo Toffolo define como “transformação”, abrindo espaço para protagonistas pouco usuais.

“A primeira mudança é no naipe de sopros, a partir da entrada de um trombone, dois trompetes e três saxofones. É muito legal ter dentro da orquestra um naipe de saxofones, que dão a ligação com o clima jazzístico. A segunda  é em relação ao trio solista - piano, contrabaixo e bateria”, explica.

Toffolo destaca que o “motor” do concerto ficará em torno do trio. “Isso dá uma série de opções para quem arranja e para a própria orquestra. Tudo isso nos leva a uma paisagem sonora nova”, observa. Nas formações orquestrais tradicionais, sublinha o regente, o saxofone não foi incorporado à música erudita. A entrada dele significa uma “forte mudança”.

O maestro escolheu, dentro da discografia de Ellington, músicas que o pianista imortalizou, a partir da obra dele e de outros compositores. Estarão presentes desde  “Take the ‘A’ train” a “Stadurst”, uma das canções mais gravadas da história. “O Duke é uma porta de entrada neste mundo tão vasto e cheio de nuanças que é o do jazz”, afirma.

Para Toffolo, Ellington foi sinônimo de inovação, ao combinar elementos do blues ao jazz, tocando piano de uma forma inesquecível. “O pianismo de Duke tem melodias sempre muito rebuscadas, passando toda aquela atmosfera dos anos 20 e 30. São obras que deixaram o nome marcado para a história”.