Num período em que as amizades verdadeiras se tornaram um importante antídoto ao esmorecimento psicológico provocado pela pandemia, é curioso perceber que são poucos os filmes a abordarem o tema lançados nos últimos dez anos. Pelo menos, não da forma como foi mostrada no filme “First Cow – A Primeira Vaca da América”, em cartaz nos cinemas e disponível nas plataformas digitais.

O elo entre Figowitz e o chinês King-Lu não se dá porque eles têm uma missão a cumprir, como nas produções policiais e de super-heróis. Ou mesmo dentro daquele subgênero dos apostos que se atraem – neste sentido, a dupla nem precisaria ser formada por humanos. Os protagonistas são de origens diferentes, mas estas diferenças étnicas se diluem tanto na narrativa que se torna fácil identificar pelo o que há em comum.

Propositadamente com um ritmo mais lento que o normal, sem a necessidade de se construir ações a todo momento, o filme de Kelly Reichardt é como um remédio de efeito estendido, dissolvendo-se gradualmente no “estômago” dramatúrgico para se chegar ao efeito desejado, focado justamente na relação de amizade, constituída em meio à barbárie da fronteira americana, no Oregon do século XIX, ainda sob domínio inglês.

A trama se desenvolve mais no campo das contraposições entre a dupla e os personagens que a rodeiam, homens quase selvagens e ingleses esnobes. Este olhar se transforma num poderoso instrumento para se radiografar várias deformações humanas: a xenofobia, a divisão de classes e a falta de sensibilidade, presentes mesmo num lugar praticamente desabitado, onde falta de tudo um pouco.

É aí que entra a vaca do título. Os ingleses trazem a primeira espécie ao estado, cujo leite só é consumido por eles, como creme adicionado ao chá. Figowitz, que é cozinheiro, monta com o amigo um negócio de doces, valendo-se clandestinamente do produto do animal. A apropriação vira uma bomba-relógio; sabemos o que irá acontecer, mas a progressão da amizade, pontuada por momentos singelos, ganha um caráter quase místico, acima do bem e do mal.