Maria Jacqueline Rodet não carrega nenhum chicote ou arma. Muito menos já ficou dependurada num tanque de guerra ou zepelim – proezas com a marca do personagem de Indiana Jones. Fugir de uma pedra rolante, então, só mesmo em “Caçadores da Arca Perdida”, um  clássico do gênero de aventura que completa 40 anos de lançamento neste sábado.

O que não quer dizer que a arqueóloga mineira não tenha enfrentado perigos desde que começou a fazer as suas primeiras escavações em busca de peças históricas. Certa vez, quando realizava trabalho de campo ao lado de estudantes, na serra do Sabonetal, no norte de Minas Gerais, ela notou que o guia local não parava de olhar para trás e dizer “oropa”.  

“Não entendia muito o que ele estava falando. Só fui compreender quando já estávamos em cima de uma caixa de abelhas-europeias. Você não pode matá-las porque soltam um feronômio, atraindo outras abelhas. Foi uma tragédia, com todo mundo correndo”, lembra Maria Jacqueline, que é professora do Departamento de Antropologia e Arqueologia da UFMG.

Também já viu ataques de cobras, aranhas e escorpiões, queda de aluno que teve  17 pontos na perna e quase todos colegas de trabalho contraindo leishmaniose, doença comum em países de clima quente e úmido. A arqueóloga passou ilesa por todas essas situações. “Se sou uma heroína? Por enquanto, podemos dizer que sim”, brinca.

Ela já queria ser arqueóloga antes de ver um filme com Indiana Jones, mas confessa que o personagem de Harrison Ford a ajudou na escolha da profissão. Assim como tantos outros profissionais que entraram na faculdade imaginando um dia ser como o aventureiro. “Sempre brinco com meus alunos que, apesar de Indiana inspirar muita gente até hoje, a arqueologia não tem muito a ver com ele”, pondera.

Maria Jacqueline assinala que o herói, que mais tarde protagonizaria outros três filmes, sai da janela do escritório para viajar mundo afora, cercado de mulheres e homens bonitos, enfrentando muitos perigos até encontrar a peça que mudará o mundo. A realidade, porém, está recheada de ingredientes menos emocionantes, como burocracia e resultados morosos.

“São três meses para conseguir a autorização do IPHAN, mais três meses para o Ibama e outro tanto de tempo para o dono da fazenda onde queremos acampar dar o ok. Não vai ter ninguém bonito, já que todo mundo estará sujo e cansado devido ao trabalho de escavação, que é muito pesado. E não vai achar que irá mudar o mundo. A transformação que ocorre a partir do que encontramos é muito lenta”, compara.

Para a arqueóloga, a grande contribuição de Indiana é fomentar um imaginário em torno de nossa existência. “Ao mexer com os primórdios da humanidade, a gente mexe com este imaginário, a partir de questões como ‘de onde viemos’, ‘como chegamos até aqui’ e ‘quem somos’. Como saímos da África e sobrevivemos em meio àqueles animais gigantes?”.

Com foco de trabalho na região amazônica e no Centro-Norte de Minas Gerais, Maria Jacqueline destaca a relevância  das mulheres neste setor.  “Na arqueologia brasileira, temos uma grande quantidade  trabalhando em todo o Brasil, muitas delas com contribuições científicas importantes”, celebra.

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