Fundador da Companhia das Letras, uma das maiores editoras do país, Luiz Schwarcz só encontrou o caminho certo para contar a história de seus pais, judeus que tiveram que sair às pressas da Europa durante o período nazista e acabaram se encontrando no Brasil, quando tomou coragem para falar de uma doença que lhe martirizou por décadas: a depressão.

“Ando com este livro dentro de mim há anos. Primeiro pensei em fazê-lo em formato ficcional e, depois, numa não ficção, falando da história de meu pai especificamente. Foi muito bom quando achei o fio da depressão para contar esta história familiar”, registra Schwarcz, convidado de hoje do  “Sempre um Papo”, com transmissão às 19h30 nas redes sociais do projeto.

“O Ar que me Falta – História de uma Curta Infância e de uma Longa Depressão”  quase se chamou “O Silêncio do Meu Pai”, em referência “a um homem que, em seu íntimo, era muito quieto, que evitava contar a própria história, sobre quando estava num trem a caminho de um campo de concentração, junto com meu avô”.

O garoto húngaro conseguiu escapar, durante uma parada, mas o pai dele não, seguindo para Bergen-Belsen, na Alemanha, onde foi morto.  “Este evento marcou muito a vida dele, passando a ter muita depressão, um certo descontrole emocional e muita culpa. O livro poderia ter se chamado ‘O Silêncio do Meu Pai’ se tivesse sido só sobre ele”, assinala Schwarcz.

O editor optou por relacionar a doença do pai com a própria angústia, ao se sentir responsável por manter a felicidade dentro de casa. “Eu quis um pouco tentar entender como a depressão chega para mim e de como está ligada à história de meu pai, não apenas demonstrando uma conexão genética, mas como estes eventos que marcaram a vida dele vão, de alguma forma, acabar marcando a minha”, sublinha.

Quando garoto, Schwarcz ouvia as pernas do pai batendo com força na parede, durante as crises de depressão. “O comportamento dele, a dinâmica do casamento com minha mãe e a vida familiar vão me influenciar, fazendo com que eu tentasse assumir muitas responsabilidades ainda muito jovem. Então, eu volto ao passado para explicar a minha depressão futura”, destaca.

O autor observa que a depressão hoje é melhor compreendida na sociedade. “Antigamente todo mundo escondia, tinha vergonha. Embora ainda exista (um tabu). Para escrever o livro, eu tive que, de certa forma, aceitar e assim construir uma narrativa íntegra, sem omitir nada, mesmo passagens que não me são muito favoráveis”.

Entre estas passagens estão os efeitos da bipolaridade, quando “perdeu a cabeça” e exibiu atos de violência ao quebrar o box do banheiro. O relato dele envolve mudanças de médicos, muita análise e vários remédios que provocavam efeitos colaterais. “Durante muito tempo, eu escrevi pensando que meu objetivo era ajudar as pessoas (com depressão). Mas depois cheguei a conclusão de que, se o meu livro era honesto, eu precisava ser honesto comigo mesmo: escrevi para mim mesmo”, analisa.

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