Após a liberação, na segunda-feira, do funcionamento do comércio não essencial em Belo Horizonte, incluindo as casas de espetáculos, algumas salas de cinema retomam as atividades hoje (a segunda reabertura em três meses). Uma das estreias é “Fale com as Abelhas”, que entra no Pátio Savassi.

Ao narrar a história de amor entre duas mulheres numa cidade proletária da Escócia, na década de 1950, o filme não irá se desviar de mostrar uma sociedade conservadora, para quem a relação entre uma médica, Jean (Anna Paquin), e uma operária casada, Lydia (Holly Granger), surge como uma aberração.

Há um terceiro elemento que faz este  enredo caminhar para além das fraturas previstas para um romance considerado proibido: Charles, filho de Lydia, que seria o personagem “do espectador”, por quem toda a trama atravessa como num daqueles dramas de formação.

Ele é diferente das outras crianças, mostrando uma rara sensibilidade para o que acontece à sua volta. É Charles quem põe Jean e Lydia em contato. A raiva dele diante da relação  não se dá por uma infração à “natureza” das coisas, mas sim pelo fato de a mãe ter lhe faltado com a verdade.

A natureza com quem ele se relaciona é outra,  ao se interessar pela sociedade criada pelas abelhas. Estas ouvem seus segredos, sem qualquer julgamento. É o valor de ser verdadeiro numa sociedade que vive de aparências, em que a própria médica parece tomar como melhor opção.

A abelha do filme é revestida de certo simbolismo, como se fosse permitido a ela ver um determinado futuro que, apesar de todo movimento contrário, parece irrefreável. “Fale com as Abelhas” perde alguns pontos por justamente não saber enxergar este “lugar” representado pela retrógrada cidade.

Ela se  torna quase caricata, clichê, derrotada desde o primeiro momento diante de tudo o que foi trilhado posteriormente. Uma dose a mais da fantasia e do frescor de Charles não faria mal ao filme de Annabel Jankel, que chega a ser muito metódico em sua estrutura dramática.

Na cena seguinte a de uma senhora que diz conhecer o passado “imundo” de Jean, vemos Lydia sendo chamada de “excêntrica” pela cunhada. Estas relações, por sua reiteração, acabam tendo um resultado duvidoso, deixando a história muito previsível.

Ora são bem construídas, como no momento em que Lydia é violentada e Jean salva uma garota de um aborto mal realizado; ora não passam de um artifício simplista, exemplificado no instante em que Lydia é demitida da fábrica onde trabalha e a médica é maltratada pela mãe de um paciente.

Apesar do preconceito que a dupla sofre, a aproximação entre elas não precisava ser tão calculada, impressão que só aumenta por conta da direção muito comportada de Annabel, que pôs o pé no freio na hora de se deixar levar pelo mundo fantasioso de Charles e suas abelhas.

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