A animação “Soul” resgata os principais elementos de “Divertidamente” e “Viva – A Vida é uma Festa”, também produzidas pela Pixar, mas num nível ainda mais sofisticado. Lançado no dia de Natal diretamente no canal de streaming da Disney, o filme amplia o desafio de tratar temas complexos como os propósitos da vida, os mistérios da mente humana e o que acontece após a morte.

“Soul” é menos lúdico e mais reflexivo do que os antecessores, embora também siga caminhos muito parecidos, especialmente na construção do mundo espiritual. Este é visto como uma grande engrenagem, em que cada um tem um papel, desde a preparação para o nascimento até o momento do fim da existência. A diferença é que, no novo filme, ela é menos elaborada.

O além não é mostrado de forma tão engenhosa quanto “Divertidamente” descreve os diversos níveis da formação de nossa psique, transformado num grande playground, em que os protagonistas precisam passar por todos os estágios até cumprirem o seu objetivo. Em “Soul”, este retrato de uma outra dimensão é menos rico, representado pela ideia de um lugar disforme, vago e de poucas cores.

Talvez o intuito seja não aprofundar demais para não recair em leituras religiosas, abordagem sempre tabu. Não se fala em Deus ou histórias bíblicas. Os personagens que residem no “além” são como rabiscos, que nos remetem à simplicidade de traços do curta-metragem “Dia e Noite”, lançado pela Pixar em 2010. Se “Viva” foi fiel à maneira de enxergar a morte, isso se deve mais ao exotismo de um aspecto da cultura mexicana.

Não fica claro o conceito de paraíso como um lugar em oposição ao inferno – que também não é mostrado, por sinal. Sobressaem-se as etapas administrativas, se assim podemos dizer. Mas esse pouco já é suficiente para criar uma história densa. A Escola da Vida, onde as personalidades são formadas antes de as almas ganharem identidade humana, é onde se pavimentam as principais reflexões do filme.

É um local de transição e ponto de encontro entre dois personagens que estão a meio caminho de algo, sem conseguirem completar a jornada. É o caso de Joe, um músico de estilo jazzista que morre antes de realizar a apresentação de sua vida. E o de 22, que vem postergando há milhares de anos a sua ida para a Terra, por não encontrar nenhum propósito na existência humana.

Desta forma, a evolução de ambos a partir do entendimento de uma certa complementaridade entre eles. Em “Divertidamente”, esta compreensão se dá de maneira quase didática (psicologicamente falando), ao mostrar que a alegria e a tristeza são igualmente importantes em nosso desenvolvimento. Com um desfecho não menos emocionante, “Soul” aponta para uma discussão sobre o que está por trás dos grandes propósitos de vida.

Veja o trailer: