Com o Brasil no centro das atenções do mundo em relação ao meio ambiente, por conta das queimadas na floresta amazônica, a mensagem do filme japonês “Vision”, uma das estreias de hoje nos cinemas, parece ser dirigida a nós.
 
Ambientada numa floresta chamada Nara, a produção de Naomi Kawase protagonizada pela francesa Juliette Binoche dá um sentido mais metafísico e afetivo – como é comum na filmografia da cineasta – à questão ecológica.
 
É como se “Hiroshima, Mon Amour” (1959), drama romântico de Alain Resnais, encontrasse “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (1969), ficção-científica cerebral de Stanley Kubrick, ao imbricar uma relação amorosa franco-japonesa com uma história sobre destino e renascimento.
 
Como no icônico trabalho de Kubrick, “Vision” se resume basicamente à morte e ao renascimento. A floresta onde uma jornalista (Juliette) se instala em busca de uma rara erva passa por um momento de transformação, a princípio lido como fruto do desenvolvimento desenfreado.
 
“Quando a vida se desenvolve demais ela começa a se autodestruir por vontade própria”, observa a personagem a um guarda da montanha local, com quem se envolve. Assim como em “Hiroshima”, o passado vai ressurgir dentro de um processo de cura que a jornalista empreende.
 
Angústias
Vision, a planta, traz essa perspectiva (quase uma redundância, se buscarmos o significado da palavra em português, visão) para a jornalista. Com o filme dividido em duas partes – uma primeira, mais longa, e outra, mais curta –, é no último movimento que as angústias dela se evidenciam.
 
“Vision”, o filme, ganha, assim, uma leitura mais esperançosa (e até religiosa), em que o fogo que queima a floresta (não apenas a da trama, mas todas) pode ser significativo de uma nova percepção sobre a vida, como um ritual – de expurgo – pelo qual precisamos passar.