Já pela cena de abertura, um artifício narrativo que nos conduzirá às origens do personagem, é possível antecipar que “Rocketman” – a esperada cinebiografia do cantor Elton John que estreia hoje nos cinemas – pouco tem a ver com “Bohemian Rhapsody”, o filme sobre o Queen que pôs os musicais em cotação alta no ano passado.
 
O cantor de “Your Song” e “Sacrifice” surge com as habituais fantasias correndo para uma clínica de reabilitação, apresentando-se, de maneira  desconfortável, a um grupo de internos. Em “Bohemian”, vemos a expectativa do vocalista Freddie Mercury minutos antes de entrar no palco para se apresentar no show filantrópico “Live Aid”.
 
Apesar de o diretor de ambos ser o mesmo (Dexter Fletcher, que assina “Rocketman”, foi chamado às pressas para substituir Bryan Singer durante as filmagens de “Bohemian”), são obras de temperamentos e ambições muito diferentes. O longa sobre Elton John é mais inflexivo, focado no drama pessoal do cantor inglês.
 
Já “Bohemian”, embora tenha a história de Mercury como mote central, é, por assim dizer, um filme sobre amigos. O ponto que os une – a música do grupo – é levado para dentro da trama, sendo possível perceber com maior nitidez que o que estão construindo tem grande valor musical. É esse momento de transformação que serve de força-motriz.
 
Uma interação que se processa de maneira diferente em “Rocketman”. A música é ilustrativa dos problemas vividos pelo astro, embora algumas delas não tenham necessariamente se inspirado nestes dramas. Elas surgem para ajudar a definir o personagem – e não o contrário, como ocorre em “Bohemian”, em que a banda acaba se refletindo nos discos que produziu.
 
Cenas musicadas
A narrativa de “Rocketman” tem um tipo de comunicação que costuma ter adesões apenas entre o público americano. São poucas as obras que, com exceções das animações da Disney, não sofrem uma disrupção ao adotar diálogos cantados, com todos começando a dançar ao redor. A não ser quando a intenção é provocar uma sensação de artificialismo.
 
Essas cenas musicais são usadas para mostrar Elton John como uma pessoa especial, mas pouco efetivas para nos conduzir à mente criativa do autor de dezenas de hits produzidos em mais de cinco décadas. A música do astro, por sinal, não está contextualizada com o que acontecia no cenário pop, especialmente dos anos 60 e 70, o que torna mais difícil mensurar, a não ser para iniciados, o que representou para a época. 
 
O filme está mais interessado, como já deixa claro o início, na superação de Elton (ou melhor, Reginald Dwight, seu nome de batismo) em relação aos traumas familiares. Neste ponto, a produção não deixa qualquer dúvida sobre o que um ambiente de desamor fez com o protagonista, gerando-lhe todos os tipos de insegurança. 
 
Um conflito pessoal que é reforçado na narração do Elton do “presente” (durante a década de 90, quando foi para a clínica de reabilitação) bem como nas cenas de interação com os pais, em que estes aparecem sempre com atuação mais exagerada. Neste sentido, “Rocketman” entrega tudo muito mastigadinho ao espectador, tirando muito da força do drama que o astro experimentou.
 
 
eltonO filme mostra um artista que ficou marcado pelas roupas e acessórios excêntricos e pela performance sempre contagiante à frente do piano
 
 
Belo Horizonte receberá tributo ao artista na próxima semana
 
Para o cantor e músico Rogério Martins, Elton John sempre esteve dois passos à frente em qualquer coisa que se metia a fazer na área musical. “Ele foi inovador em tudo, como compositor, músico e performer. Soube trabalhar o marketing como ninguém, por meio da roupa e das atitudes no palco”, observa o maestro, que é o único cover oficial do astro na América Latina.
 
Há quase 30 anos levando para os palcos do Brasil e do exterior o repertório do “Rocketman”, ele se apresenta no próximo dia 8 em Belo Horizonte, no Cine Theatro Brasil Vallourec, com o show “Elton John Tribute”. “Espero que o filme abra bastante portas para nós, porque ele chega num momento muito especial, em que acabamos de lançar um álbum com músicas de Elton”, afirma.
 
Não é comum cantores e grupos cover lançarem discos com o repertório daqueles que, por exigência do público, buscam imitar no palco. “É um álbum oficial, em que todas as dez canções foram liberadas com o aval da gravadora e do próprio cantor”, comemora. 
 
Elton & John
Martins já era músico profissional quando recebeu o convite para participar, como orquestrador e tecladista, de uma banda cover dos Beatles. O passo seguinte foi fazer um duo com o “John Lennon” do grupo, o responsável por sugerir ao maestro para se transformar no Elton John brasileiro, “por ser pianista como Elton”. “Depois disso, não parei mais de pesquisar e me aperfeiçoar”.
 
Cover e ídolo já se encontraram duas vezes, pessoalmente, quando Elton esteve no Rio de Janeiro, em 2011, para se apresentar no Rock in Rio, e em Belo Horizonte, em 2013, para a reinauguração do Mineirão. “Trabalhei como sósia oficial dele, ficando caracterizado para recepcionar as pessoas nos camarotes, tocar piano e tirar fotos”, recorda.
 
 
Ouça as principais músicas de Elton John:
 
"Your Song"
 
 
"Rocket Man"
 
 
"Sacriface"
 
 
"Nikita"
 
 
"Candle in the Wind"