São Paulo. Pensar a cultura menos como algo eventual e mais como um dispositivo de participação ativa nos rumos do país. Trocadilhos a parte, esta pode ser considerada a ementa fundamental divulgada na coletiva da 18º edição do Itaú Rumos Cultural, realizada na segunda-feira, em São Paulo. Uma das maiores ferramentas do mercado dedicada ao fomento e parceria em propostas de diversas instâncias culturais, o anúncio dos projetos contemplados pelo projeto no biênio 2017/2018 sinalizou algumas mudanças em relação às edições anteriores.

Transformações buscadas a muito pela instituição, principalmente voltadas a distribuição mais ampla e proporcionada de apoio por todo o país, fomentando especialmente as regiões Norte e Nordeste. “Pela primeira vez, todos os estados do Brasil foram contemplados, garantindo uma ‘meritocracia’ que só pode ser exercida com a mobilização entre os participantes e oportunidades mais equânimes”, disse Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural. “Em um país de carência, de grandes desigualdades, temos muito trabalho nesta direção. E só conseguiremos efetividade através de ações e interlocuções, saindo de uma chave típica da produção cultural, o evento, e investir em uma relação mais perene, de construção de vínculos e legados”.

Uma das ações destacadas, apontada como fundamental para o número de territórios alcançados, foi o Rumos Escuta, que levou integrantes da instituição para diversas regiões do Brasil, em busca de entender as particularidades de cada uma. Saron lembrou da emenda básica dos Direitos Culturais, referente às noções de acesso e, principalmente, participação. “É nosso grande desejo atual, e é algo bem mais complexo”, assume. 

Minas Gerais

Dos 109 projetos contemplados na edição deste ano, que dividirão (de acordo com cada demanda) um investimento na casa dos R$16 milhões, Minas Gerais divide com Pernambuco o 3º lugar entre o maior número de projetos aceitos. Nove projetos mineiros foram selecionados, com propostas que incluem desde o Retratistas do Morro, dedicado ao patrimônio fotográfico da Comunidade da Serra, até um curta metragem de animação, realizado com a participação da tribo indígena Maxakali. Somados à outros contemplados como “E a Cor a Gente Imagina”, espetáculo que tem como foco um dançarino cego, “Área Criativa– Pinhões”, pesquisa sobre a construção de um espaço auto gerido da comunidade quilombola de mesmo nome, em Santa Luzia, a edição deste ano do Rumos sinaliza outra palavra-chave importante: acessibilidade. 

A cineasta Paula Gomes, membro da comissão de seleção desta edição, justifica a escolha dos projetos mineiros sob o argumento de que o Estado apresentou propostas “muito potentes”, onde temáticas como a questão negra vieram com muita presença. “Estamos num momento de décadas de avanço, que agora querem empurrar pra trás. Mas quem ganhou voz não quer se calar. Se os projetos olham pra isso, nosso dever como comissão é olhar também”, diz .

Ana de Fátima Sousa, gerente de Comunicação do instituto, também destacou o mergulho mais profundo que o Rumos deu em direção à representatividade, tanto no que se refere à territorialidade dos projetos, quanto suas temática. “Não podemos apagar o que está na sociedade. É preciso celebrar isso”, acredita. 

O jornalista viajou a convite do Instituto Itaú Cultural