Com as pernas amputadas após ser uma das vítimas do atentado ocorrido na Maratona de Boston, em 2013, Jeff Bauman tenta entrar na banheira, sendo observado pela antiga namorada, à espera por ajudá-lo. São olhares e gestos, sem que seja preciso dizer mais nada nesta cena de “O Que Te Faz Mais Forte”, estreia de hoje nos cinemas.
 
A partir dessa sequência, o filme deixa evidente que a sua filiação não é a das obras de Hollywood que transformam qualquer tragédia em lição de heroísmo e nacionalismo. Por várias vezes, o personagem questiona esse papel que lhe atribuem – “Sou herói só porque perdi as minhas pernas?”, indaga em certo momento. Diferentemente de outros filmes, não interessa a vida pregressa, o bom moço que Bauman teria sido, e o caminho trilhado para ser “herói”. 
 
Sua história começa pouco depois que a bomba explode. O atentado nunca é explorado de forma apelativa, resumindo-se a alguns minutos, com o filme preferindo se atentar à relação familiar. A partir do que está no entorno dele conhecemos uma família problemática, em que a mãe é dependente e possessiva. 
 
O fato de ele se tornar uma estrela midiática, acelera esse processo de deterioração. Em sua primeira parte, o roteiro se concentra naquilo que impede Bauman de amadurecer e superar o trauma.
 
Observamos o personagem de Jake Gyllenhaal por um olhar de fora, a partir da namorada que se sente culpada pelo ocorrido – Bauman teria ido à maratona para vê-la correr. Vivida por Tatiana Maslany, ela acaba sendo a grande protagonista, trazendo ao filme um quê feminista na maneira como ela se impõe ao ambiente machista.
 
Embora se possa ressalvar que o filme de David Grodon Green se renda a um certo heroísmo nos instantes finais, ele é fruto mais de um crescimento pessoal de Bauman, sobre o papel que representa dentro de uma cultura revanchista e belicosa.