A cena de um caminhão de entrega jogando na calçada um punhado de jornais ao amanhecer já é clássica entre os filmes sobre o mundo da notícia. Steven Spielberg recorre a ela em “The Post: Guerra Secreta”, uma das estreias de hoje nos cinemas, num momento climático da história, baseada num caso real ocorrido no início da década de 70, quando o então presidente Richard Nixon tentava impedir que os jornais divulgassem um dossiê comprometedor sobre a participação na Guerra do Vietnã.

Diferentemente de outros trabalhos como “Todos os Homens do Presidente” (1976) e “Spotlight – Segredos Revelados” (2015), a sequência não está lá somente para louvar uma época em que o jornalismo não tinha a concorrência da internet e podia realmente ser chamado de quarto poder. Spielberg assumidamente mergulha num passado áureo para falar dos Estados Unidos de hoje, comparando Nixon com Donald Trump no empenho pelo cerceamento à liberdade de imprensa.

Atualidade que está presente também no olhar sobre o feminino. Numa redação recheada de homens que fumam e parecem não dormir, Kat Graham, dona do Washington Post, se torna uma mártir não só por enfrentar o governo e autorizar as publicações, mas pela maneira em que impõe a sua natureza. Essa é a melhor contribuição de Spielberg, que, em sua filmografia, não teve muitas mulheres no comando da trama.

Kat representa essa quebra e, não por acaso, é interpretada por Meryl Streep, dona de personagens fortes, que vai da fragilidade como deixa conduzir os rumos do jornal e de sua vida, à percepção que pode ela mesma determinar as suas escolhas, que representam exatamente os anseios da população. E, se lembrarmos que Hillary Clinton era a concorrente de Trump nas eleições, “The Post” se torna um dolorido lamento sobre o que poderia ter sido a América sem o desequilibrado empresário.