A imagem de um transatlântico afundando no mar gelado e deixando centenas de passageiros e tripulantes mortos não é algo lá muito animador. Mas naquele 19 de dezembro de 1997, manhã de sexta-feira, um misto de satisfação e êxtase tomou conta de boa parte dos críticos de cinema que acompanharam a primeira exibição de “Titanic” no Brasil.

A projeção aconteceu numa sala do Shopping Iguatemi, em São Paulo, no mesmo dia em que o filme de James Cameron estreava nos Estados Unidos, e a expectativa antes não era das melhores. Afinal, informações de bastidores antecipavam um caro empreendimento indo à pique, assim como o navio que inspirou o roteiro.

Briga com os atores, o perfeccionismo de Cameron e o estouro do orçamento – US$ 200 milhões, maior valor gasto num longa-metragem até então – levaram Hollywood e a imprensa a pensarem que mar e cinema não se misturavam, a julgar pelos fracassos de outros dois filmes lançados na época: “Velocidade Máxima 2” e “Waterworld”.

Previsões
Na sala lotada do Iguatemi, com críticos de norte a sul do país, os olhos marejados de decanos provaram que “Titanic” havia passado com louvor no desenvolvimento de sua história romântica, sobre uma garota rica e infeliz e um pobre pintor que se enamoram no que será o primeiro e último encontro deles.

Os espetaculares efeitos especiais, que buscaram reproduzir fielmente a tragédia em todos os seus detalhes, ajudaram a digerir a ideia de que tínhamos visto algo jamais feito, pelo menos não naquela proporção. Em minha primeira crítica sobre o filme, publicada cinco dias depois no Hoje em Dia, destacava que o filme “aportou em cais seguro e promete ser uma das maiores bilheterias de 1998”.

Em 24 de dezembro de 1997, o Hoje em Dia já anunciava que o filme teria céu de brigadeiro na jornada pelas telas

Não me atrevi, como um colega cearense, a cravar com todas as letras que “Titanic” seria o filme do ano. Um sucesso estrondoso em todos os continentes, confirmado na cerimônia do Oscar, quando Cameron subiu ao palco para receber uma das 11 estatuetas e se declarou o “rei do mundo”.

O filme virou uma febre, com a melosa música “My Heart Will Go On”, de Céline Dion,transformando-se em hit e catapultando o nome de Leonardo DiCaprio como o ideal romântico de toda garota. Em Belo Horizonte, estreou em várias salas, entre elas o Palladium, na rua Rio de Janeiro, que viu filas dobrando o quarteirão, com caravanas vindas do interior. Um ano depois, a sala de rua fecharia as portas.

Filme estreou em 16 de janeiro de 1998 no Brasil, entrando em nove salas de Belo Horizonte

“Titanic” estreou em circuito nacional em 16 de janeiro de 1998, em cerca de 250 salas no Brasil. Em BH, foram nove, incluindo duas inauguradas naquele dia – uma no Shopping Norte, em Venda Nova, ainda em atividade, e outra no Central Shopping, que já fechou suas portas.

O filme de James Cameron chegou às telonas num momento de transição do mercado exibidor, que começava a se concentrar em shopping centers. Para alguns cinemas de ruas, o longa representou um último suspiro na busca por sobrevivência.

Na crítica publicada pelo Hoje em Dia, um dia antes da estreia, destaque para o comentário social embutido no filme, ao mostrar que o Titanic levava a bordo pessoas da fina sociedade inglesa e passageiros de menor poder aquisitivo, que buscavam uma nova chance em terras americanas.

Segundo o texto, “o cineasta mostra a luta de classes com sutil ironia, deixando transparecer a sua inclinação pela ala pobre do filme. Os aristocratas são pincelados com afetação e ganham ares de vilão da história. (...) Os pobres cantam e dançam num ambiente que contrasta com o tédio e a arrogância dos banquetes oferecidos para a classe pobre. Como é bom ser pobre, parece querer dizer o filme”.

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