É possível entender a atração do diretor e ator Kenneth Branagh pelo universo de Agatha Christie, a “Rainha do Crime” da literatura mundial. Ao adaptar para o cinema “Assassino no Expresso do Oriente”, um dos livros mais famosos da escritora inglesa, Branagh não está interessado exatamente no que convencionou chamar de “whodunit”, típico dos filmes de detetives às voltas com misteriosos crimes.

Desvendar um assassinato ocorrido na viagem de trem entre Istambul e Paris é peça importante da trama do filme que estreia hoje nos cinemas, mas o realizador se mostra seduzido pela transformação do personagem, Hercule Poirot, vivido pelo próprio Branagh. Já nas primeiras cenas, ele é mostrado com um perfeccionista obcecado, que não descansa enquanto não consegue dois ovos de tamanhos iguais.

A um chefe de polícia, Poirot explica que ele só enxerga duas coisas: o certo e o errado. Osa movimentos seguintes, na viagem interrompida de um trem, porão à prova essa ideia. É neste instante que Branagh se aproxima de um de seus autores mais caros: William Shakespeare. Do bardo inglês, levou às telas “Henrique V”, “Hamlet”, “Muito Barulho por Nada”, “Amores Perdidos” e “As You Like It”.

O detetive belga tem suas certezas abaladas, mesmo quando está no caminho correto. É como se pusessem em questão o próprio conceito de verdade, um selo legitimado por instâncias morais e éticas. Ao final, Poirot não está numa posição equidistante sobre os fatos, mas dentro deles, como partícipe de uma grande trama, sendo o mais curioso que ele não tenha sido convidado a integrá-la.

A impressão que se tem é que todo o elenco recheado de estrelas – do naipe de Michelle Pfeiffer, Johnny Depp, Penélope Cruz, Willem Dafoe, Judi Dench e Derek Jacobi – está no filme por causa da sequência final, uma espécie de julgamento às avessas. Estão todos os passageiros numa grande mesa, na entrada de um túnel,  à espera da resolução de Poirot. Mas quem faz o exame de consciência é o detetive.

Branagh realiza um mergulho na mente antes blindada de Poirot, assim como o fez em Hamlet, Henrique e até mesmo Thor, numa escala reduzida, razão de os fãs não terem gostado do primeiro filme solo do super-herói. São mentes atormentadas, cada um com seus fantasmas. No caso de “Assassinato no Expresso do Oriente”, surge uma segunda morte, anterior a do trem e ainda mais avassaladora.

Apesar de a câmera ir de um lado a outro no trem, de maneira incansável, os personagens parecem saídos de uma peça teatral, mais evidenciando do que escondendo a função deles na história, à espera do grand finale.