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Humberto Werneck, Edmilson Caminha e Pedro Drummond falam sobre a vida do poeta no Fórum das Letras

OURO PRETO. “Vai, Carlos! Ser gauche na vida”, diz o célebre verso de “O Poema de Sete Faces”, tema da mesa de abertura do 13º Fórum das Letras. O papo, que aconteceu na última quarta-feira, em Ouro Preto, foi focado na vida pessoal de Carlos Drummond de Andrade, homenageado da edição de 2017, ano que marca as três décadas de sua morte. Durante mais de uma hora, os jornalistas e escritores Humberto Werneck e Edmilson Caminha e o cenógrafo Pedro Drummond, neto do poeta, refletiram sobre o tal gauchismo (termo francês que se refere à inabilidade social) do pacato itabirano.

Um dos mais renomados jornalistas brasileiros, Werneck prepara desde 2016 a biografia de Drummond, prevista para o ano que vem. “Fui convidado pela Companhia das Letras e topei na hora. Não só porque Drummond é o maior poeta brasileiro, mas porque é o meu poeta. É o cara que falou as coisas que eu queria falar”, explica o escriba mineiro. “Ele é mais que uma referência literária. É quem me socorre na vida pessoal, com luzes que respondem questões existenciais”.

Tranquilo

Para Werneck, um dos grandes desafios da biografia é o fato de que o poeta não teve uma trajetória pessoal agitada. “A vida de Drummond não é carregada de acontecimentos sensacionais. Não é um Vinicius de Moraes, que se casou nove vezes, ‘enchia a cara’, foi aposentado pela ditadura. Ele era pacato, viajou pouquíssimo, teve uma vida bastante regrada, de burocrata”, afirma. “O trabalho é pegar um acontecimento conhecido e ver o que está por trás disso. Por exemplo, as cronologias de vida e obra dele dizem: ‘1934, vai trabalhar no Rio de Janeiro como chefe de gabinete do ministro de educação e saúde’. Mas, espera. Como foi isso? Como chegou o convite? Em que circunstâncias? A questão é debulhar as coisas pequenas para revelar melhor essa figura aos olhos das pessoas”, diz.

O jornalista conta que o livro já está em fase final de organização. “Estou naquele ponto em que você chegou da feira e vai separar as coisas do balaio, para ver o que dá para fazer com o que você tem”, metaforiza. “É muito bom que ele tenha tido três netos que estão aí e são capazes de reconstituir esse Drummond doméstico. Também mergulhei muito em papeis e diários. Fiz uma entrevista com ele para a ‘IstoÉ’, em 1985, e agora voltei à transcrição integral. É delicioso voltar àquele momento. Drummond era acolhedor, receptivo, profissional. Muito na dele, mas também muito falante”, relembra, refletindo os porquês do tal gauchismo.

“O artista é uma pessoa para quem o mundo, tal como existe, é inaceitável e deve ser modificado. É quem olha para esse mundo e o conta de outra maneira. Como se o passasse à limpo”, reflete Werneck. “Drummond era isso. Uma pessoa sensível e inteligente, exposta às causas, tristezas e alegrias. Um poeta que não olhava só para seu umbigo, que tinha esse ‘sentimento do mundo’, que era incapaz de não olhar ao redor, sofrer e eventualmente se alegrar com esse mundo. Não sei quando teremos outro poeta dessa dimensão”. 

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 O jornalista Humberto Werneck entrevista Carlos Drummond de Andrade para a revista “IstoÉ”, no ano de 1985

‘Homem de gabinete’, avô carinhoso e calejado pelas perdas

Em entrevista ao Hoje em Dia, Pedro Drummond conta um pouco sobre a intimidade do avô, figura que se autoproclamava “um homem de gabinete”. “Carlos vivia naquela cápsula, que era o escritório dele, como se fosse um viajante no espaço. Ele acompanhava o mundo através dos jornais, da leitura. De alguma forma, ele teve essa percepção grandiosa de ver o mundo sem necessariamente percorrê-lo”, afirma o cenógrafo, lembrando que Carlos Drummond de Andrade terminou a vida como funcionário público no Rio de Janeiro. 

Apesar do jeito taciturno, na intimidade Drummond era afetuoso, como lembra o neto. “Ele era uma pessoa muito carinhosa. Gostava da nossa companhia. A gente brincava, se divertia de várias maneiras. Uma das coisas mais bacanas de que me lembro era ele contando para a gente, antes de dormir, as histórias do gigante Cafas Leão, que é um personagem da história da família”, relembra. “Carlos tinha uma mania boba de tirar a dentadura para assustar as crianças na rua. Minha avó se chateava, mas nós adorávamos”, diverte-se. 

Outro ponto destacado da vida de Drummond foi sua relação com as perdas. Além de ver falecer todos os irmãos, também assistiu à morte da mãe e dos dois filhos. “Ele perdeu, quando era moço, seu primeiro filho, Carlos Flávio, e no fim da vida, mamãe (Maria Julieta). Já tinha problemas cardíacos e a tristeza da perda da filha foi marcante. Ele falava que essa não era a ordem natural das coisas, e de fato não era”, diz Pedro, ressaltando o pavor do itabirano em “incomodar os outros”. 

“Uma vez ele me disse uma coisa bonita: “Eu não preciso de dez mandamentos para viver. Me basta só um: ‘não interferir na vida dos outros’”, conta Pedro. “Um dia contei isso com um amigo e ele e disse: ‘Mas seu avô interferiu na vida de todo mundo!’. Eu nunca tinha pensado nisso, mas é verdade. Como uma pessoa como ele, ou como Vinicius de Moraes ou tantos outros artistas cheios de talentos e inspiração, não interferiram na vida dos outros?”, reflete.

* O jornalista viajou a convite do Fórum das Letras.