Novembro de 2016. Em sua primeira apresentação em Belo Horizonte, Baco Exu do Blues divide o palco com os pratas da casa do DV Tribo. Incensado pelo sucesso da controversa “Sulicídio” – em que exalta o Nordeste e declara “guerra” aos MCs do eixo Centro-Sul – o rapper baiano provoca uma verdadeira apoteose n’A Fábrica. Enquanto berra seu “bate cabeça, ladrão!”, um mosh colossal se abre na pista, lembrando os tempos de auge do hardcore no Brasil. 

Corta para novembro de 2017. Um ano depois, o soteropolitano autodenominado “karma da cena” não canta mais a música que catapultou sua fama. É que além de exaltar a rivalidade no rap, cheia de agressividade e masculinidade tóxica, a track afundou Baco em depressão e paranoia. A recuperação, porém, veio de forma arrebatadora com seu disco de estreia – “Esú”, o “CD do ano”, como ele mesmo gosta de dizer, sem falsa modéstia. Agora, de fato, Baco nem precisa mais de “Sulicídio” no repertório, já que seu pente de músicas nunca esteve tão carregado. 

Nascido Diogo Moncorvo, o rapper que assumiu nome de deus destila toda sua bagagem lírica e potência criativa nas dez faixas de “Esú”. Conflitos pessoais, excessos, caos urbano, religião, amores e angústias figuram entre as letras, frutos da bagunçada cabeça do baiano (só dele, ou de toda a sua geração?).  Da mesma forma que mistura assuntos densos, o álbum bota no mesmo caldeirão diferentes influências artísticas do rimador: dos tambores africanos às batidas de trap; de Taratino e Almodóvar a Jorge Amado e Machado de Assis; de Fagner e Martinho da Vila a Rage Against The Machine e Nação Zumbi. 

“Esú” é, sim, um passeio sem cinto de segurança pelas tormentas pessoais e atravessamentos socioculturais de Baco, mas que também vai além do confessional. Trata-se de um retrato dos tempos atuais no rap nacional, em que MCs enfrentam seus demônios aos olhos do público, descortinando uma busca por evolução confusa e, ao mesmo tempo, atenta às pautas da contemporaneidade. 

Para entender melhor, basta ouvir “En tu Mira”, quando Baco expõe toda a sua fragilidade e a pressão que o abateu depois da fama: “Homem não chora / foda-se, eu tô chorando”, uma frase até então inimaginável no contexto masculinóide do rap. Já na seminal “Te amo, disgraça”, a lovesong do álbum, o rapper versa sobre o amor à sua maneira, chula e sem rodeios: “Bebendo vinho / Quebrando as taça / Fodendo por toda casa / Se divido o maço / Eu te amo, desgraça”. E se o papo é auto-afirmação, “Abre Caminho” deixa claro que, apesar de refletir sobre sua conduta, Baco se orgulha de não ter pedido “licença para chegar até aqui”.

“Esú” ainda encontra momentos altos em “Capitães de Areia”, “A Pele Que Habito” e na faixa-título, quando o rapper baiano confessa, por cima de um inspirado sample de “Mistério do Planeta”, dos Novos Baianos: “Sinto que os deuses têm medo de mim”. Quem nunca sentiu algo parecido diante das rasteiras da vida? Baco, na verdade, não é nem Deus nem homem, nem certo nem errado. Ele apenas vai mostrando como é e sendo como pode. Como todos nós.