Stephen King reinou soberano nos anos 80 entre os mestres do terror no cinema, com vários dos livros adaptados para a telona, resultando em sucessos como “O Iluminado” (1980), de Stanley Kubrick, “Christine, o Carro Assassino”, de John Carpenter,“Na Hora da Zona Morta” (1983), de David Cronenberg, “Cujo”, de Lewis Teague, e “O Cemitério Maldito” (1989), de Mary Lambert.
 
A verdade é que esse interesse de Hollywood surgiu bem antes, com “Carrie, a Estranha” (1976), de Brian De Palma, mas com o gênero cada vez mais sanguinolento e cruel a partir da década de 90, King (rei, em inglês) perdeu a majestade. Uma tentativa de reocupar o posto começa agora, quando vários “clássicos” oitentistas estão ganhando remakes, entre eles “Poltergeist” e “A Morte do Demônio”.
 
Duas recentes adaptações do escritor entram em cartaz praticamente ao mesmo tempo nos cinemas: “A Torre Negra”, em exibição, e “It: A Coisa”, um dos lançamentos de hoje. “A Torre Negra” não tem predecessores, apesar de o primeiro livro da série chegar às prateleiras em 1982. Já “It” ganhou uma versão para a TV exibida em 1990, mas considerada morna e pouco fiel ao best-seller de 1986.
 
Na TV, Stephen King também é fonte de duas séries: “Mr. Mercedes”, que foi ao ar no mês passado, e “O Nevoeiro”, já disponível na Netflix. Ainda em produção, “Castle Rock” é a adaptação mais ousada, pois investe em três histórias famosas do mestre – “O Iluminado”, “It” e “Salem”. A Netflix também prepara o filme “Jogo Perigoso”, sobre brincadeira sexual que termina em tragédia e luta pela sobrevivência.
 
Velho Oeste
Com Matthew McConaughey como um vilão disposto a espalhar o mal pelo universo, “A Torre Negra” não é propriamente um filme de terror. Embora não faltem bons sustos, a produção de Ron Howard está mais para uma ficção-científica fantasiosa, sobre mundos paralelos, seres que perambulam disfarçados pela Terra e portais do tempo, ingredientes fartamente presentes na literatura do gênero, como “Senhor dos Anéis”.
 
Apesar de o Homem de Preto personificado por McConaghey ter poderes mágicos, com capacidade para induzir a morte de quem lhe atravessa o caminho, o principal oponente é um pistoleiro típico do Velho Oeste (Idris Elba). Ele está em busca de vingança e não é de muitas palavras, numa referência que “A Torre Negra” não faz questão de esconder: o western spaghetti, citado na fachada de uma cinema na cena final.
 
A narrativa trabalha sobre um embate de gêneros, com o mistério envolvendo o mal sendo mais assustador, explorando o lado terror. Enquanto o misterioso caubói tem uma pegada realista, espécie de Clint Eastwood de “Três Homens em Conflito”. Essa mistura de épocas e gêneros nunca foi bem digerida pelo cinema. E, no caso de “A Torre Negra”, torna o filme simplório, com gosto de déjà-vu.