Com a evolução da animação digital, especialmente no que diz respeito às tramas cada vez mais sofisticadas, e à linguagem, que estabelece referências com clássicos do cinema, era de se esperar que chegasse às salas um filme voltado para o público adulto, que não deixasse para os papais apenas as piadinhas referenciais dos infantis.

Em cartaz nos cinemas, “Festa da Salsicha” tem essa intenção, com vocabulário e situações carregados de menções ao sexo, em diferentes formas. Esse é, podemos assim dizer, o único conteúdo acima de 18 anos do longa-metragem, pois a maneira como envolve essas questões adultas preserva uma estrutura de obra infantil.

Não se trata de uma sátira, pois o filme segue a cartilha do gênero com seriedade em seus três atos. A principal referência é “Toy Story”. Assim como os brinquedos que não conhecem nada além do espaço da casa do dono e se mostram a serviço dos humanos, os alimentos de um supermercado também idealizam um mundo próprio.

Seth Rogen e seus parceiros vêm reprisando um tipo de comédia comum no fim dos anos 70, em que o humor vinha da liberdade em falar de sexo e usar drogas, dois aspectos presentes na animação

O primeiro aspecto que chama a atenção é justamente esse lado funcional, reproduzindo uma sociedade humana. Se os brinquedos de “Toy Story” estampavam em seu microcosmo as relações, principalmente de trabalho, obrigados a entreter um garoto, no supermercado eles anseiam pelo momento de serem comprados.

Na produção de 1995, havia o medo de ser esquecido ou trocado por outro brinquedo. Algo parecido acontece com “Festa da Salsicha”. O grande temor é não ser escolhido e “vencer”, no sentido negativo, e ser jogado na lata de lixo. A meta de vida, portanto, está atrelada à aprovação de alguém maior e soberano.

O filme roteirizado por Seth Rogen (“Besouro Verde”) poderia desenvolver questões como consumismo desenfreado, desperdício, ecologia, padrões de comportamento, marketing agressivo e capitalismo, mas não quer perder de vista a fofura dos personagens, restringindo-se à relação amorosa entre uma salsicha e um pão.

O romance é tão idealizado quanto a visão de mundo dos produtos, que acreditam ir, em algum momento, para uma espécie de paraíso após passarem pela porta do estabelecimento. Salsicha e pão de hot dog seriam feitos um para o outro, mas por conta de uma convenção humana, levados a crer nisso por uma imposição que vem de fora.

Mas o que interessa aos produtores é o humor sexista que se pode tirar disso, com a salsicha ávida por entrar no pão, não faltando sinônimos para essa ação, além das opções visuais – a boca do pão fica no meio e está na vertical, remetendo a uma vagina.