Com “O Lar das Crianças Peculiares”, Tim Burton leva para o seu universo bizarro um dos temas mais presentes na literatura infantojuvenil, principalmente a inglesa: a Segunda Grande Guerra como motivação de histórias fantásticas, envolvendo órfãos e crianças que precisam se esconder das bombas.

O afastamento forçado dos pais cria uma dimensão paralela, refletindo a luta entre Bem e Mal, com os pequenos geralmente tendo papel determinante nessa balança – vide “As Crônicas de Nárnia”, além da variante espanhola “O Labirinto do Fauno”, que acontece durante o período franquista.

Baseado em livro de Ramson Riggs, “O Lar das Crianças Peculiares” é passado no presente, mas a morte do avô (Terence Stamp) leva um garoto a uma ilha do País de Gales, onde ele encontra um portal mágico que o leva até 1943, exatamente no dia em que uma bomba destrói um orfanato.

Apesar de ser uma história “emprestada”, Burton sublinha dois aspectos caros à sua filmografia – um deles é o personagem diferente dos demais, geralmente tímido ou excêntrico. Mesmo quando são estranhos aos olhos dos outros, eles são ingênuos, mais “puros” que a sociedade irônica e maldosa.

Assim, Jake, que é neto de poloneses que fugiram do Holocausto, tem a mesma filiação da criação de um velho inventor, em “Edward Mãos de Tesoura” (1990). Neste, o cientista – espécie de Gepeto de “Pinóquio” – deixa seu “projeto” inconcluso antes de morrer, assim como acontece em “O Lar”.

Jake, bem como Edward, são deixados num mundo cruel, que não perdoa as diferenças. Tímido, ele irá descobrir outros motivos para se sentir especial, ao entrar em contato com um grupo de crianças peculiares, que tem poderes como invisibilidade, lançar fogo, voar e força descomunal.

Até nos faz lembrar dos “X-Men”, numa versão infantojuvenil, em que os diferentes são perseguidos por “dissidentes”, criaturas com os mesmos poderes e que, em busca de mais poder, acabam bandeando-se para o Mal. A leitura bíblica é inevitável, com o salvador saindo dos humanos.

Claro que, em se tratando de Burton, os personagens ganham matizes sombrios, que também são ressaltados na direção de arte e nos conduz a filmes de suspense e terror das primeiras décadas do século passado. Os olhos se destacam, característica presente em quase todos os filmes do realizador.

Os críticos ferrenhos de Burton vão reclamar que seus últimos trabalhos têm sido repetitivos e até preguiçosos, especialmente no desenvolvimento de personagens, perdendo-se em achados visuais. O fato é que, ao que parece, ele tem recorrido ao passado em busca de uma pureza hoje inexistente.