Cartola, capa, unhas enormes, pragas lançadas contra seus adversários e o desejo permanente de encontrar a mulher para gerar o filho perfeito: cinco características que definem um dos maiores ícones do terror no mundo. Zé do Caixão está no mesmo patamar de Freddy Krueger, Jason, Mike Myers e os zumbis de George Romero para os fãs do gênero.

O que salta aos olhos é a origem 100% brasileira desse agente funerário que, há mais de 50 anos, venceu a pouca tradição do país no gênero, a censura e a falta de recursos, com o espectador irá perceber hoje (15), no Parque Municipal, onde serão exibidos os três filmes protagonizados pelo personagem, dentro da segunda edição do projeto “Inverno das Artes”.

“Meu cinema é diferente. Lançaram e ainda lançam um filme atrás do outro, mas todos são iguais. O que fiz foi mostrar algo que não tinham feito”, registra José Mojica Marins, o criador de Josefel Zanatas, vulgo Zé do Caixão. Aos 80 anos, o ator e diretor ainda espera pôr novamente a capa e a cartola num filme – a última foi em “Encarnação do Demônio”, em 2008.

“Será um filme sobre a minha vida, como tudo começou, sobre aquilo que eu acreditava, o fato de ter sido criado dentro de um cinema... A minha vantagem sobre os outros garotos é que via filme direto (seu pai trabalhava numa sala de projeção). Depois resolvi fazê-los do meu jeito, com as ideias que tinha em mente”, relata Mojica.

Nascido em São Paulo, num dia 13 (de março), ele concebeu Zé do Caixão em 1963, após ter um pesadelo em que um vulto o arrastava até o túmulo. Pouco depois lançava “À Meia-Noite Levarei a Sua Alma”, filme que abre a trilogia formada ainda por “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1966) e “Encarnação do Demônio”.

Mojica confessa que ela não ficou livre dos pesadelos. Mas continua tirando bom proveito deles. “Tenho muitos. Pesadelo é algo me inspira para várias coisas”, registra. Com políticos, garante, não tem. “Desses eu fujo. Só uma vez resolvi entrar nisso (lançado-se como deputado federal), mas por amizade a Jânio Quadros”.

Para sobreviver e driblar a censura, Mojica dirigiu obras de outras gêneros, como o bangue-bangue “A Sina do Aventureiro” (1958), primeira produção brasileira em cinemascope. “Como no terror, sempre buscava fazer algo diferente, até mesmo nas fitas de sexo explícito”, recorda.

Em tempos de xenofobia e casos de racismo, é impossível não perguntar sobre a ideia de “filho perfeito” defendida por sua cria. “O Zé do Caixão queria alguém mais inteligente, capacitado e arrojado. Ele acreditava que estava certo”, explica. As feministas também não vão gostar: as candidatas, geralmente sensuais, passam por testes com vermes e aranhas e torturas.

Um dos coordenadores do Cine Humberto Mauro, Philipe Ratton destaca que o cinema de Mojica sempre caminhou “fora do padrão”, do início dos anos 60 até as suas mais recentes investidas no cinema. “Na época em que começou a trilogia, não tinha nada igual ao Zé do Caixão e ao terror que ele fazia. Depois ele ficou famoso mundialmente e seu último filme, de 2008, continuou anárquico”, analisa.

Mojica acompanharia as sessões de hoje (as senhas foram distribuídas ontem) e faria uma performance, lançando suas costumeiras pragas, mas problemas de saúde o impediram de vir. “Será ótimo terminar esses ciclos dedicados ao terror com um realizador brasileiro que lutou muito e mostrou grande inventividade”, destaca Philipe.