Duas imagens na TV provocaram revolta entre adeptos do veganismo nos últimos dias. A primeira, na novela juvenil “Malhação” (Globo), quando uma garota vegetariana é coagida a comer carne vermelha após sofrer bullying. A segunda, no programa culinário “Tempero de Família” (GNT), quando o apresentador Rodrigo Hilbert ensina a matar um filhote de ovelha para um churrasco rústico.

Aliado à estreia do filme “Mundo Cão”, que enfoca o sacrifício de animais, o tema pôs novamente em debate antigos mitos sobre uma filosofia de vida que busca excluir todas as formas de exploração e de crueldade contra animais.
“As pessoas ainda se sentem ofendidas quando, numa festa ou confraternização, a gente diz que não pode comer o que oferecem. Acham que é frescura nossa”, registra a cantora e produtora Priscilla Glenda.
Integrante do grupo musical Djambê, ao lado do marido Emílio Dragão, também vegano, ela passou a levar marmitas para os locais de apresentação – um pequeno dificultador diante dos imensos ganhos para a saúde e para a consciência, ressalta. “Gosto de falar que minha dieta é vegetariana estrita e que minha vida é vegana. É mais do que uma filosofia de vida. É uma conduta abolicionista”, avisa.
Sim, a atitude tem um pouco a ver com o regime escravocrata que persistiu até o fim do século 19. No lugar de índios e negros, animais estão no centro dessa luta. O veganismo abole qualquer alimento ou produto derivado de algum bicho.

“É incoerente lutar contra uma determinada opressão, como o feminismo, e não perceber que também está praticando uma forma de sofrimento”
Emílio Dragão,
músico e vegano


“É incoerente lutar contra uma determinada opressão, como o feminismo, e não perceber que também está praticando uma forma de sofrimento”, compara Emílio.

Veja as polêmicas sobre veganismo envolvendo famosos

Opções
Sofrimento, por sinal, é uma palavra que não está no cardápio dos veganos, ao contrário do que muitos imaginam. “Não é dolorido. Hoje está mais fácil, com muitas opções para se comer na rua. Quando a gene faz show São Paulo é ótimo, porque lá é um paraíso, tem um fast-food vegano aberto até 7 horas da manhã, com milk shake, brigadeiro e estrogonofe sem nada animal”, afirma Priscilla.
Outro pensamento que cai por terra, segundo ela, é achar que produtos veganos são mais sofisticados e caros. “Tem esse misticismo, mas a verdade é que a nossa alimentação é mais econômica. Diminuímos em 60% os gastos com supermercado”, calcula a artista, que só faz a compra da cesta básica nesses estabelecimentos. “O resto é comida viva, comprada no sacolão”, diz a artista, para quem “carne nada mais é do que um pedaço de bicho, temperado para ficar saboroso”

Criatividade
Priscilla garante que qualquer ingrediente de origem animal pode ser substituído, citando a água – para o lugar do leite – e a linhaça, que faz as vezes do ovo no preparo de bolos, por exemplo. Em relação à carne, há hambúrgueres que vão da quinoa à lentilha.
Emílio destaca que a alimentação é apenas consequência de um movimento social, um dos combustíveis das músicas do Djambê. Para o músico, a mudança envolve um aspecto mais cultural. “Comer carne é coisa aprendida. Não é natural”.

Paulo Renato

PAULO RENATO – Pratos elaborados segundo a filosofia vegana: “Você adere ao veganismo, 99% das vezes, por uma questão ética, devido ao sofrimento dos animais”

 

Pioneiro, empresário planeja novos investimentos

Paulo Renato de Freitas criou o primeiro food truck de comida 100% vegana do Brasil. Os carrinhos de lanche dele hoje estão espalhados em três pontos de Belo Horizonte: Lourdes, Buritis e próximo ao campus da UFMG. “É resultado de um empreendimento que começou há dez anos, numa época que não tinha nada nesse sentido ainda”, recorda.

Ele começou fazendo kits para entrega e chegou a pensar em abrir um restaurante, mas os preços salgados dos aluguéis (“inviáveis nas regiões onde trabalho”) o levaram para o segmento dos food trucks. Na verdade, diferentemente de seus congêneres, os carros não se deslocam pela cidade, lembrando os velhos trailers de sanduíches.

Eventos e Tele-entrega
“Já temos uma clientela, que conta com esse nosso serviço, mas, até o final do ano, devo montar um carro itinerante também, para rodar os bairros e fazer eventos”, revela Paulo Renato, que também irá implantar serviço de tele-entregas, em abril. “Como temos carrinhos em pontos diversos de BH, os motoqueiros se deslocarão a partir deles”.
O lema do chef de cozinha é que o cardápio não precisa ser tão diferente do que os não-vegetarianos comem. Pelo menos, na aparência. São mais de 30 pratos, de bife acebolado a tropeiros (veganos). “Os lanches são um pouquinho mais caros que os convencionais, sim, mas porque proteínas vegetais, por exemplo, não são baratas”.
Paulo foi vegano por cinco anos. Teve que abandonar a dieta momentaneamente por ter ficado obeso, por incrível que pareça. “A gente acha que vai ficar magrelo, mas o problema é que comecei a comer ‘gordice’, alimentos com muito carboidrato”, relata. Depois de uma cirurgia bariátrica ele perdeu 60 quilos e voltou a consumir leite e o ovo caipira, a pedido médico. 

Questão ética
Residente em Contagem, Paulo era militante da causa vegana, participando de protestos e panfletagem nas ruas. “Você adere ao veganismo, 99% das vezes, por questão ética, devido ao sofrimento dos animais. Aí começamos a realizar reuniões em casa e eu ia para a cozinha fazer pizzas. Eles gostaram e passei a vender, montando também ceias veganas no Natal”.

 

Adepta diz que benefícios são para o corpo e a consciência

Veneno puro”. É assim que Carla Cosmos define os alimentos industrializados. A terapeuta holística conta que não foi difícil se tornar uma vegana, pois já sentia essa necessidade “internamente”, devido ao amor pelos animais e também “por sentir cedo a conexão com o amor como um todo”.

Ela vê benefícios para o corpo e para a mente. Fisicamente, garante, as mudanças foram muitas, especialmente na pele e no sangue. 
“Nós somos o que comemos”, afirma Carla, que atualmente está fazendo um curso avançado de comida vegetariana, já com o intuito de aproveitar a crescente adesão ao mundo vegano.
Carla pensa em montar uma lanchonete especializada, ampliando um serviço que ela já faz em casa, com entrega de comida por encomenda. 
“Começou como uma coisa entre amigos. Marcávamos de encontrar para uma reuniãozinha e, como a galera era vegetariana, trocávamos receitas e pratos diferentes”.
A terapeuta destaca também que os restaurantes e lanchonetes já começam a ver necessidade de variarem os cardápios.
“Os clientes procuram por lugares que tenham comida vegetariana, o que leva os donos a procurarem fornecedores para esse tipo de produto”, observa.