O escrachado protagonista do clássico “Macunaíma, o Herói Sem Nenhum Caráter”, romance do escritor Mário de Andrade (1893- 1945), vira "Macunaíma em Quadrinhos”, com o cuidado demandado à uma luxuosa edição. Mas para que tamanho zelo com um “anti-herói” como este, que só pensa em si mesmo? A resposta está no início deste parágrafo: ele virou um “clássico”.
 
A obra entrou para a “língua do gibi” mais facilmente, graças ao “gigante do domínio público”, conforme se refere o próprio texto do livro. A liberação se deu em 1º de janeiro deste ano, e a publicação pode ser a primeira quadrinização do texto andradiano.
 
A criação de “Macunaíma em Quadrinhos” (Editora Peirópolis, 80 páginas, R$ 39) é dos ilustradores Angelo Abu e Dan X.

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"Macunaimou" total
 
Mineiro de Belo Horizontes, Abu está radicado no Sul da Bahia. Mas por que a Bahia? Desde que “caiu a ficha” de que com a profissão dele pode-se trabalhar em qualquer lugar. Por essas é que o ilustrador diz que “Macunaimou”.
 
Vida perto da natureza, tal qual Macunaíma na tribo em que nasceu. Mas a preguiça do anti-herói não houve. Foram dois anos de trabalho entre adaptação e desenho. Inspiração sobrou para o traço que o ilustrador fez em parceria virtual do colega, Dan X, que vive na capital mineira. “Fizemos tudo a duas mãos”, conta.
 
Abu diz que primeiro viu o filme “Macunaíma”, de 1969, com o ator Grande Otelo no papel do principal. Mais tarde, diz, leu o livro. “E gostei mais do livro. Nele, Mário de Andrade criou uma linguagem revolucionária”.

Para achar a cara do Macunaíma, os autores pesquisaram em outras representações. Nestas, haviam desenhos feitos pelos próprios modernistas, como de Tarsila do Amaral.
 
“Por exemplo, a primeira página da nossa HQ é baseada em um desenho do Carybé (argentino conhecido por ilustrar livros do romancista Jorge Amado) chamado ‘Nascimento do Macunaíma’”. Em todas estas representações, acrescenta, o protagonista estava azul. “Mas o texto diz que ele é ‘preto retinto’”, lembra.

 

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Desde 1926
 
Escrito em apenas uma semana, em dezembro de 1926, e lançado dois anos depois, em 1928, o livro deixou o público impactado. E foi prevendo esse impacto que Mário de Andrade disse, na época, que o que escreveu “não é um romance, nem um poema, nem uma epopéia (...) Diria antes, que é um coquetel. Um sacolejado de quanta coisa há por aí”.

E terminou chamando o livro de "rapsódia" - reunião em uma mesma obra de temas ou assuntos diferentes e de várias origens. Assim, "Macunaíma" é composto de histórias de origens variadas, superstições, palavras em tupi e anedotas e folclore típicos da cultura e do caráter brasileiros.