Os números estão na ponta da língua: “Já são 1.650 shows ‘limpo’, incluindo o DVD do Barão (Vermelho) no Circo Voador, o DVD dos Britos (projeto paralelo) na Inglaterra e os meus seis CDs e dois DVDs solo”, brinda Rodrigo Santos. Por limpo, ele quer dizer sem drogas (incluindo o álcool). “Comemoro muito os dez anos (e quatro meses), pois foi muito difícil decidir parar com tudo – principalmente com o álcool”, admite ele que, no rol de dias felizes, lança, agora, sua biografia – “Cara a Cara”, assinada por Ricardo Pugialli – e mais um DVD, “A Festa Rock – Volume 1”.
 
O livro conta a trajetória de Rodrigo, que se confunde com a do BRock, pelo fato de sua atuação no Barão Vermelho (como baixista), e passa, claro, pela sua experiência com as drogas – e o caminho de volta. Além de fotos (mais de 400) e depoimentos de amigos (como Paula Toller, Léo Jaime), a obra traz ainda, um CD, com cinco faixas inéditas, incluindo a primeira composição de Santos, feita quando o músico tinha 12 anos.
 
Já o DVD, que sai pela Coqueiro Verde, foi gravado no Polo Cine Vídeo (RJ), com direção de João Elias Jr. O repertório abarca músicas do Barão (“Maior Abandonado”), Legião (“Que País é Este”), Paralamas (“Óculos”, “Meu Erro”), Lobão (“Vida Louca Vida”), Los Hermanos (“Anna Julia”), Skank (“Vou Deixar”)...
 
Os dias ruins, pois, ficaram para trás. “Hoje, vejo como estava começando a ficar chato, perigoso e previsível aquele caminho”. Confira, a seguir, trechos da entrevista com Santos:
 
Dez anos “limpo”... A pergunta é meio óbvia, mas vá lá... Como se sente?
Não troco o pior dia limpo pelo melhor de doideira. Nada era tão deprimente quanto a cocaína, o álcool para rebater. Dentro disso, era até um personagem bom companheiro de festas, papos, doideiras, mas sabia que, internamente, estava começando a me sentir numa prisão. E aceitei ajuda. Esse é o primeiro passo.
 
Claro que quem tem um mínimo de sensibilidade imagina que o caminho foi tortuoso... O que te impulsionou?
Foquei em mim, na VIDA, em andar pra frente. Nunca recaí. Disso me orgulho, por ter entendido o processo da abstinência. Não subestimo a doença, sei que as drogas são um cilada. Sou um cara do bem, pra cima, compositor, esportista, empresário, pai, marido, filho. Consegui sair disso e a vida me sorriu. Recair para que? Aprendi muita coisa no Centro Vida. Com o psiquiatra, as seis terapeutas e, em especial, com Susana Biazetto, minha terapeuta individual. O grupo era fantástico! Fiz a minha parte. Minha mulher, meu irmão e o Frejat foram fundamentais: às vezes é preciso uma cúpula de gente querida em volta. É uma doença sem cura, mas que tem tratamento, ao contrário de outras. E escutei caras com mais tempo de abstinência. Me orgulho de ter freado isso tudo e, sinceramente, não fiz mais que minha obrigação.
 
As drogas ainda são vistas com certo glamour, algo outsider, gauche... O que diria aos que cultivam essa ilusão?
O glamour foi o mais difícil de desmontar. Meu personagem rocker. O último a sair da festa! Isso foi difícil. Mas o que se ganha é infinitamente melhor, não dá nem para explicar. Só vivendo. Viver e se ressignificar. Não misturar problemas, com a doença. Um diabético, ao perder um ente querido, etc, não pode usar a tristeza como desculpa para se entupir de doces. O dependente químico também é isso. Se você tem um problema na vida e resolve recair, você passa a ter dois problemas....
 
Bem, vamos falar da sua vida profissional... Como está a carreira solo? Tem tocado também com outros artistas, ou se dedicado só aos seus projetos?
Cada vez melhor, cada vez mais shows na agenda. Cerca de 20, 25 por mês. Faço shows autorais e shows festa, foi daí que veio a ideia de gravar o projeto “A festa rock volume 1”. Menescal sugeriu fazermos medleys e colocar público no CD. Eu dei a ideia do DVD e meu empresário, o Luiz Paulo Assunção, juntou todos nós para a realização de tudo isso.
 
Pode falar sobre a biografia, em especial?
Sim, ela conta com 85 depoimentos, que vão de Erasmo Carlos e Andy Summers a Frejat, Ney Matogrosso, Leo Jaime, Lobão, Nando Reis e muitos mais. Encartei um CD acústico com músicas que têm a ver com a narrativa, incluindo a primeira música que compus, aos 11 anos. E tem músicas para minha mulher, meu filho, meu psiquiatra que morreu quando eu tinha cinco meses de abstinência, etc. O texto está linkado aos Beatles em todos capítulos, escritos a quatro mãos com Ricardo Puggialli. Realmente estou feliz. Quando começo um projeto, entro de cabeça e vou até o final. Foram, então, três produtos em 2015, além da turnê com Andy Summers (The Police), que repito em 2016. Um momento fértil de composições também. Mais de 70 inéditas novinhas. Agora é aguardar! E os shows continuam, 18 a 20 por mês!
 
Como o DVD foi sendo arquitetado... Qual o seu insight, como as canções foram sendo agrupadas?
Escolhi pelo andamento, por tipo de letras, pelo clima das canções, as décadas. Escolhi artistas que escutei quando pequeno e foram influências, além de gente das gerações seguintes. A festa rock é uma salada danada (risos), mas com o meu power trio tocando, ganha corpo, simplicidade e alma punk! Em quatro sessões o disco estava pronto. Na verdade, estava pronto ANTES de “Motel Maravilha”, de 2013, mas preferi lançar o autoral naquele momento.
 
Qual é, para vc, o “pulo do gato” deste projeto?
Do livro, contar a VERDADE. Me entreguei a isso, sem medo de ser feliz. Momentos maravilhosos e outros bem ruins. Esse é o pulo do gato. Passar informações sobre a doença e nunca ser o dono da verdade. Tem artista de rock que faz diário de desintoxicação, mas vive tendo recaídas. Sobre o DVD, o pulo do gato são três caras que pertencem à história do rock e são considerados um dos dois melhores trios de rock do Brasil. Andy Summers avalizou. Então, temos de fazer jus. Seriedade e comprometimento. E claro, diversão! Em ambos os projetos! Tento ser verdadeiro e honesto com o que gosto e o que faço. Esse é meu compromisso com a vida!