Esperança. Esse também poderia ser o nome do ex-mutante Arnaldo Baptista, que acaba de ter sua obra completa em carreira solo lançada. A edição, vale dizer, é limitada (Canal 3, R$ 119,90). Os discos foram lançados após a saída de Baptista da banda que o consagrou, em 1973. Aos 67 anos, radicado em Minas há cerca de 20, ele se divide entre BH e Juiz de Fora – onde tem um estúdio e se enche de “energia pura” para gravar o próximo disco: “Esphera”. E foi da Zona da Mata que o moço simpaticamente falou ao Hoje em Dia. Confira:
 
Hoje em Dia - Tem acompanhado as tragédias em MG?
Dentro do possível. Ainda não consegui ver alguma desculpa para tudo. Vai ser difícil, mas vamos ter esperança.
 
Você nota sua influência diante dos jovens?
Eu consigo, em parte. Mas é tanta gente começando... Às vezes, aparece um gênio, entre tanta gente mais ou menos, e se sobressai. Assim como foi com você... (Risos) Eu vou tentando.
 
Você mistura humor, filosofia e poesia nas canções. Isso influencia também?
Tenho a impressão que a poesia é a parte que tem maior influência no meu trabalho. A gente tenta influenciar para fazer com que a vida não seja tão difícil de ser vivida.
 
Viver é muito difícil?
Em um sentido, assim, de totalidade... A humanidade está meio desligada no sentido de poluir, de não fazer automóveis elétricos, de não querer parar de comer carne, de usar amplificadores valvulados e instrumentos Gibson. Tem a ver com evolução. A gente ousa em função de evoluir.
 
E o trabalho como artista plástico?
Eu estou pintando a capa do disco novo. Aí, alguém fotografa. Recentemente, fiz uma série em SP.
 
Como lida com a passagem do tempo?
É a PVC – p... da velhice chegando! Você me desculpe! A gente tem que se adaptar. Mas faço exercícios, flexão de abdominal, halteres…
 
Então você está com aquele corpão da capa de “Loki?”...
(Risos) Tô. Eu já fazia ginástica desde aquela época. Fora isso, fiz mil coisas: caratê, balé...
 
Balé???
No Ballet Stagium (SP), na década de 80. Fiquei uns anos. Mas não fui nenhum bailarino maravilhoso. Procurei o balé para fazer exercícios. Tem a ver com postura. Na peça “Heliogábalo, o Anarquista Coroado”, dancei um pouco com os Mutantes.
 
Nas gavetinhas do Arnaldo, as composições garantem mais quantos discos?
Não sei lhe dizer. Só sei que vou compondo e gravando na medida do possível. Tem muita inédita gravada. Dá quase para soltar um “LP”. Já pintei a capa. Vai se chamar “Esphera”. Fala de energia pura, e traz uma religião que eu penso em criar, chamada “Endoterismo” – não importa em que você creia, seu interior é que manda.
 
Pretende abrir templos?
Não passa de uma ideia filosófica.
 
E show em BH?
Eu penso assim: se pagarem, eu toco, né? Tem que ter conexões. Vamos ver o que o futuro manda.
 
E o carinho do público?
É gostoso. Inclusive, tem uma coisa nos shows: tem gente que vai só para pedir autógrafo, e não para assistir ao show. Na saída, está cheio de gente. E é tudo sanguinho novo.
 
Difícil ser ídolo, hein?
Às vezes, fica difícil. Às vezes, é bom. Depende do dia. (risos)
 
Você ainda acha que vai “virar bolor”? (Referência ao verso de “Loki?.)
Não. Agora encontrei uma razão para viver. Os animais evoluem em função de DNA. Já o ser humano e o macaco, em função de copiar. Vou copiar pessoas muito melhores do que eu. Por exemplo: o tecladista Tony Kaye, tocou no “The Yes Album” (1971); Jack Bruce (1943-2014), contrabaixista. Amplio meus horizontes entrando no universo de pessoas paralelas a mim. Salvador Dalí (1904-1989), o corredor de automóveis Camilo Cristófaro…
 
E o que vem pela frente?
Vai saber... O Frank Sinatra (1915-1998) falava: “Quem sabe aonde esta estrada vai nos levar, só um burro pode saber”. (Referência à letra de “All the Way”.)

 

SAIBA MAIS

A caixa traz os seguintes álbuns: "Loki?" (1974); "Singin’ Alone" (1982); "Elo Perdido+" (gravado com a Patrulha do Espaço em 1977 e lançado em 1988); "Faremos Uma Noitada Excelente" (Ao Vivo, gravado em 1978 com a Patrulha e lançado em 1988) e "Let It Bed" (2004). Destes, "Singin’ Alone", "Elo Pedido+" e "Faremos Uma Noitada Excelente" foram remasterizados.

A outra novidade é que em CD, foi possível reunir em um só álbum gravações que não entraram no LP de 1988, "Elo Perdido", que nesse lançamento chega com cinco faixas bônus, inéditas em formato físico, daí o título ter ganhado um símbolo: "Elo Perdido+".