Uma jovem estudante de letras de São Carlos, no interior paulista, achou três poemas não catalogados de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Bem, há uma grande chance de que realmente o sejam. Os três textos foram encontrados pela aluna Mayra de Souza Fontebasso, que está no último ano do curso de graduação na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Os textos foram publicados em uma edição de 1929, da extinta revista modernista “Raça” (capa ao lado). Nela, o poeta itabirano, na época ainda um jovem e pouco conhecido escritor, ainda assinava apenas “Carlos Drummond”.

Os três poemas estão em uma seção curiosamente intitulada como “Poemas Perdidos”. A estudante, de 25 anos, estima que a data provável em que foram escritos é entre os anos de 1921 e 24. Na mesma edição dos poemas de Drummond, há também uma crônica do escritor Mário de Andrade (1893-1945) que, segundo a pesquisadora, provavelmente também é inédita. Drummond já era amigo de Mário em 1929, com quem trocava correspondências constantemente.

O mineiro conheceu o paulista em 1924, em Belo Horizonte, em uma parada na cidade, feita pelo grupo de modernistas do qual Mário fazia parte. Na época, o grupo de intelectuais iniciava por aqui um “tour” para desbravar e achar a essência da cultura brasileira por vários estados.

Como tudo foi encontrado?

A estudante encontrou a publicação quando pesquisava sobre escritores modernistas. De periodicidade irregular, com publicações entre 1927 e 1934, a revista Raça era feita e impressa no próprio município, onde havia uma tipografia.

“Esta edição traz um Drummond de 1929, um ano antes de publicar o primeiro livro dele, 'Alguma Poesia', que inaugurou a segunda fase do modernismo. Estes poemas são de uma fase em que ele renegava tudo o que tinha escrito na adolescência”. Quanto à assinatura, sem o “Andrade”, Mayra diz que isso era uma marca comum do autor na década de 1920.

Mas como um texto do Carlos mineiro foi parar em uma revista de São Carlos, em São Paulo? “Como ele chegou à esta revista ainda é um mistério”, admite a estudante. Até agora, ela não achou outras ligações do poeta mineiro com a cidade.

Mas há hipóteses. E muitas! “O círculo de intelectuais na época era muito pequeno e eles se relacionavam no microcosmo da literatura”. O editor da Raça, Orlando Damiano morreu em 1933, ano em que a revista parou de ser publicada. A última edição, de 1934, foi feita em homenagem ao articulado editor.

Mayra pesquisou que Damiano chegou a ser correspondente do jornal O Estado de São Paulo – daí uma possibilidade de que ele mantivesse contato com os demais intelectuais paulistas, como Mário de Andrade, que por sua vez, conhecia Drummond. “Mário de Andrade tinha uma função didática na época, e contribuiu com várias revistas do interior. Ele pode ter recebido estes textos e enviado para a revista para fomentar o modernismo”, explica Mayra.

Rico acervo interiorano

Em 2008, as revistas foram entregues pela família de Damiano para o acervo da Fundação Pró-Memória de São Carlos, onde estão em área de conservação juntamente de outras antigas publicações da região, muitas delas de conteúdo modernista. “Em 2012, fui fazer um estágio para descrever imagens deste acervo e achei uma menção à esta revista. Achei o nome curioso: 'Raça - A revista modernista de São Carlos'. Este conceito estava muito em voga na época”, justifica Mayra.

A revista Raça contava com alguns colaboradores ligados ao movimento modernista, além de Mario de Andrade, como por exemplo, Cassiano Ricardo (1894-1974) e Menotti Del Picchia (1892-1988).

“É uma descoberta importante. Abre uma brecha para estudarmos revistas que não são dos grandes centros”, comenta a historiadora, Leila Massarão, que é chefe da Divisão de Pesquisa e Divulgação da Fundação Pró-Memória de São Carlos. O local funciona no Prédio da Antiga Estação Ferroviária de São Carlos.

Assim, de luvas nas mãos e máscaras, Mayra mergulhou no acervo. “Foi neste primeiro levantamento que me deparei com os textos do Drummond. São poemas um pouco ingênuos para o Drummond que a gente conhece. A assinatura estava sem o 'Andrade'. Pensei ser um pseudônimo. Acionei meu orientador: 'Achei uma coisa aqui'. O meu orientador foi me dando os caminhos para tentar a comprovação”, lembra.

O orientador Wilton José Marques conta que após a surpresa inicial, procurou descobrir se os poemas já haviam sido catalogados e os textos não constavam nem na Bibliografia Comentada de Carlos Drummond de Andrade (1918-1934), de Fernando Py, e nem no Inventário Drummoniano da Casa Rui Barbosa.

O professor e a estudante também consultaram o poeta e crítico Antônio Carlos Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras, que em 2012 organizou a publicação do livro “Os 25 Poemas da Triste Alegria”, do próprio Drummond, com poemas contemporâneos aos encontrados na revista Raça. Segundo Wilton, o crítico avaliou os textos e disse que não os conhecia.

 

Hoje em Dia

MAYRA - "Tinha um Drummond no meio do caminho. No meio do caminho tinha um Drummond, jovenzinho...". Crédito: Arquivo Pessoal

 

Com a palavra, o especialista

Procurado pelo Hoje em Dia, Secchin confirmou que não encontrou esses poemas em nenhum outro jornal. “E é inédito em livro. Trata-se da fase penumbrista de Drummond, com os chamados 'poemas em prosa'”, explica. Poemas de traços “simbolistas e penumbristas” são aqueles marcados por um tom melancólico e pelo uso reiterado de reticências.

O crítico diz ainda que há um primeiro livro de Drummond ainda perdido, intitulado “Teia de Aranha”, também dos anos 1920, que também devem trazer “poemas e em prosa”. “Ele ia estrear nesse gênero”, afirma.

Já a direção da Agência Riff, no Rio de Janeiro, que cuida dos direitos autorais de Drummond, informou que soube do achado pela imprensa e por redes sociais, mas que ainda não teve a confirmação da família do poeta sobre o ineditismo dos textos.

“Temos o ideal do Carlos Drummond de Andrade como um escritor de temas como a condição humana em um mundo desajustado, e nada disso aparece nos poemas de Raça, que são poemas de juventude do poeta”, explica. Desde a descoberta, a estudante diz que está surpresa com tudo. "É um poeta do mundo. E todo mundo já estudou Drummond de frente para trás e de trás para frente”, avalia.

Mayra Fontebasso diz que, a partir de agora, no Trabalho de Conclusão de Curso (TTC) dela, falar de Drummond será “inevitável”.

 
Abaixo, os textos encontrados e o fac-símile da revista:

 
O poema das mãos soluçantes, que se erguem num desejo e numa súplica

Como são belas as tuas mãos, como são belas as tuas mãos pálidas como uma canção em surdina...

As tuas mãos dançam a dança incerta do desejo, e afagam, e beijam e apertam...

As tuas mãos procuram no alto a lâmpada invisível, a lâmpada que nunca será tocada...

As tuas mãos procuram no alto a flor silenciosa, a flor que nunca será colhida...

Como é bela a volúpia inútil de teus dedos...

 

O poema das mãos que não terão outras mãos numa tarde fria de Junho

Pobres das mãos viúvas, mãos compridas e desoladas, que procuram em vão, desejam em vão...

Há em torno a elas a tristeza infinita de qualquer coisa que se perdeu para sempre...

E as mãos viúvas se encarquilham, trêmulas, cheias de rugas, vazias de outras mãos...

E as mãos viúvas tateiam, insones, − as friorentas mãos viúvas...

 

O poema dos olhos que adormeceram vendo a beleza da terra

Tudo eles viram, viram as águas quietas e suaves, as águas inquietas e sombrias...

E viram a alma das paisagens sob o outono, o voo dos pássaros vadios, e os crepúsculos sanguejantes...

E viram toda a beleza da terra, esparsa nas flores e nas nuvens, nos recantos de sombra e no dorso voluptuoso das colinas...

E a beleza da terra se fechou sobre eles e adormeceram vendo a beleza da terra...

 
CARLOS DRUMMOND

 

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