Há algum tempo, Djavan começou a curtir caminhadas por matas e espaços verdes do Rio de Janeiro, onde mora. De vez em quando, bate uma inspiração e logo vem uma melodia na cabeça, cantarolada imediatamente ao celular. Alguns desses registros deram origem a parte do repertório do recém-lançado álbum “Vidas pra Contar” (Sony).
 
“Eu penso em melodias enquanto caminho na mata, gravo no celular, para depois harmonizar o que imaginei em casa. Esse é um processo novo para mim. Comecei esse álbum com material que tinha gravado dessa maneira”, diz o artista de 66 anos, que neste trabalho explora sonoridades bem diversas como jazz, xote e samba.
 
Talvez essa nova relação com a natureza tenha sido importante para que o 23º álbum da carreira tenha ares de nostalgia. A memória é um tema marcante das principais faixas do álbum – como é o caso de “Vida Nordestina”, um xote que fala das questões vivenciadas pelo povo do Nordeste e da beleza de sua cultura: “mas quando é dia de festa/ todo povo do sertão/ dança para aparar as arestas/ do coração”.
 
É uma maneira de relembrar os tempos da infância pobre em Maceió, tema que já havia abordado em alguns momento da carreira. “Eu queria voltar a falar de alguns temas, e estava com vontade de falar de uma atmosfera nordestina. Esse disco é um pouco autobiográfico”.
 
Virgínia

A autorreferência também está presente em “Dona do Horizonte”, música que Djavan fez para sua mãe, Virgínia, que morreu quando ele tinha 21 anos de idade. É quando ele deixa claro como ela foi importante para o reconhecimento de sua vocação, assim como a bagagem musical. “Minha mãe ali/ Dona do horizonte/ Me fez ouvir/ Dalva de Oliveira/ E Angela Maria todo dia/ Deusas que adorava/ Tinha prazer/ Em me levar pra ver/ Luiz Gonzaga cantar”, diz a música.
 
“Foi minha mãe quem me incentivou. Quando eu tinha 5 anos de idade, ela viu que eu levava jeito e tinha vocação para o conto”, lembra Djavan, que costumava ver sua mãe cantando belas músicas enquanto trabalhava como lavadeira em um riacho de Maceió. “Eu ficava encantado com a fluidez do canto dela com as amigas. E estava ali, pequenininho, cantando com elas. Era uma cena muito fofa”.
 
O apoio da mãe foi fundamental para que Djavan encarasse a carreira musical – vale lembrar que ele também tinha talento para o futebol e chegou a jogar no CSA. O trabalho com a música teve início aos 16 anos, quando ele tocava em uma banda de rock chamada LSD. A mudança para o Rio de Janeiro aconteceu alguns meses após a morte de dona Virgínia.
 
Produtividade
 
Os shows referentes a “Vidas pra Contar” começam a acontecer a partir de 25 de fevereiro. No palco, Djavan vai contar com a mesma banda de “Rua dos Amores” e de muitos projetos do passado.
 
Enquanto a turnê não começa, o músico cuida da saúde, com as caminhadas inspiradoras, minutos na esteira e pilates. “O fato de eu ser bem produtivo contribui para a minha boa saúde e vice-versa. Tenho uma coisa regular de cuidado com a saúde e isso é fundamental para a minha produtividade”.
 
Djavan será o grande homenageado do Grammy Latino 2015, que terá cerimônia de premiação realizada na próxima quinta-feira (19), em Las Vegas. O cantor cubano Pablo Milanés e a dupla espanhola formada por Victor Manuel e Ana Belén também serão destacados pelo evento.