Com um público visivelmente maior que o de sexta-feira (6), o Fórum das Letras de Ouro Preto teve espaços lotados, neste sábado (7), em suas atividades. O calor dentro do Cine Vila Rica - local que abrigou várias mesas de debate - foi contornado pelos presentes com leques improvisados de papel. A intenção era não perder nenhum momento da fala de convidados como a jornalista e escritora Miriam Leitão, o jornalista Adáulio Dantas, a cartunista Laerte Coutinho e o filósofo Vladimir Safatle.

O quarto dia de atividades teve como chamariz a mesa "Prêmio Jabuti" com os jornalistas Miriam Leitão e Adáulio Dantas, mediada pela também jornalista Manya Millen, para conversar sobre a importância da reportagem. A discussão foi um momento para entender os problemas que o jornalismo enfrenta atualmente e vislumbrar caminhos possíveis para contornar as adversidades.

O imediatismo da notícia com o advento da internet criou um problema, segundo Adáulio Dantas. Esse imediatismo leva o jornal impresso e as revistas a aprofundarem os temas para não ficarem velhos. Mas ao mesmo tempo eles não tem espaço para isso, por estão reduzindo", expõe.

Para ele, a credibilidade da informação vem primeiramente pelo profissional que a produz. "É preciso que as empresas criem condições favoráveis para que essas pessoas e apostem em grandes reportagens", afirmou.

Já Miriam Leitão disparou um comentário que arrancou aplausos do público. "É preciso não desistir da reportagem. Se o seu chefe recusa a maioria das ideias, ele é que está errado e não entende a importância disso". Em seguida, a jornalista comentou sobre a ditadura militar e a tortura que sofreu na época. "Certa vez, de pois de tudo, entrevistei um general que falava sobre a ditadura. Foi difícil manter a postura de jornalista e não fazer algo mais pessoal", relembrou.

A mesa encerrou com um pedido de ajuda para as vítimas da tragédia em Mariana, feito pela idealizadora do evento Guiomar de Grammont. Na ocasião ela divulgou os pontos de coleta de mantimentos, roupas e água, em Ouro Preto.

Discussão sobre gênero

Um dos pontos altos na programação deste sábado (7), foi a mesa com a cartunista Laerte Coutinho, mediada pelo jornalista Fernando de Barros e Silva. Recebida pelo público com muitos aplausos e gritos, a cartunista comentou vários assuntos como o seu trabalho, política, e o ativismo LGBT.

Laerte afirma ter uma diferença na forma como as pessoas o abordam. "Existe uma cultura de ver o transexual como uma figura perigosa, que causa algum mal. E a questão de classe infelizmente pesa. Eles me olham como um transgressor de forma mais branda", lamentou.

A discussão sobre gênero, e a visão de grande parte da população em classificar somente dois tipos, ela rebate. "Não existe só o masculino e o feminino. Esse é um diálogo que precisa de tempo, espaço, e muito afeto para acontecer", ponderou.

Se trabaho como cartunista muitas vezes reflete o que acontece em sua vida pessoal. "As vezes uso o meu trabalho para falar de coisas que são custosas para mim. Reflito na arte antes de trazer para o real", comentou ela se referindo a sua personagem Muriel, que nos quadrinhos é uma transexual. Da forma como iniciou a convesa, sob muita euforia da plateia, ela também se encerrou.