O dono da loja de discos Baratos Afins, em São Paulo, era farmacêutico. Os fundadores da Tropicália, no Rio de Janeiro, eram camelôs. Todos têm histórias diferentes, mas o que os fizeram largar tudo para mergulhar neste ramo  das trilhas sonoras se resume, no fundo, à mesma coisa: amor. O que mais os manteriam firmes, a despeito dos ventos que nem sempre sopram a favor? Apesar de a população em geral ter “abandonado” estes lugares, uma galera considerável preserva o hábito e não abre mão de seu CD ou vinil. E são estas pessoas que ainda mantêm as portas desse tipo de comércio abertas.

“As lojas estão vivas porque são os museus e galerias da música; é onde alguém que conhece está presente para te mostrar o que é bacana e entender o teu gosto, para ampliá-lo”, diz Rodrigo Pinto, que apresenta, junto a Elisa Kriezis, o programa “Minha Loja de Discos”, no canal Bis. Os dois resolveram contar histórias que circundam este universo. “Foi muito legal conhecer quem trabalha nas lojas e descobrir que os músicos têm verdadeira paixão por elas. Recomendo que as pessoas voltem a frequentar estes lugares. O universo se amplia. As lojas de discos são as naves-mãe da música independente”, diz Elisa. O programa está na terceira temporada, que segue até 29 de novembro.

Contudo, apenas agora o Brasil surgiu em cena, com a Baratos Afins, a Tropicália e a Casa Brasilis (SP). Minas não aparece, o que não é sentença da ausência de bons exemplos. Quem for à Galeria Praça 7, provavelmente não sairá de lá sem passar por ao menos dez lojas bacanas. A All Wave, por exemplo, tem duas unidades no local, somando mais de 20 mil discos. “A música é uma paixão”, diz Paulo Sérgio, 57, que entrou como funcionário em 1984 e virou dono do negócio dois anos depois.
 
XÔ, PRECONCEITO
 
Histórias, são várias. Muitas, de fãs que se emocionaram ao encontrar o álbum tão almejado. Porém, o que mais impacta Gilson Oliveira Brito, 48 anos, funcionário da All Wave há dez, é ainda existir preconceito na área.

O motivo, especula, é que o estilo heavy metal ou roqueiro – responsável por grande parte do “sustento” destas lojas – gera desconfianças. “Há mães que vêm com o filho buscar orientação. Acham que todos deste meio mexem com bebida alcoólica e drogas, mas uma coisa não tem a ver com a outra”, frisa Brito, que tem, em casa, mais de 2 mil vinis, dentre eles, um raro álbum da banda Blackwater Park.