Há mais de 20 anos no mercado de discos, o paulista Alexandre Veloso, 43, dono da Usados com Arte, no edifício Arcângelo Maletta, também diz que já viu um bocado de coisa em sua loja. Mas foi uma história recente que ficou gravada em sua memória. “No ano passado, um homem de uns 40 e poucos anos encontrou, aqui, um disco que tinha sido da mãe dele. O disco era do fim dos anos 70 e tinha a assinatura dela, que se chamava Maria Cleusa. Ele ficou emocionado”, relembra.

Sebastião do Nascimento ou “Tião do Maletta”, 55, dono da Sebo Vila Rica – que desde o começo tem como carro-chefe o vinil –, também já viu de tudo na loja. “Uma vez, um senhor pegou um vinil e começou a rir. Ele perguntou quanto era o disco e eu disse que custava R$ 5. Ele me deu uma nota de R$ 20. Quando fui dar o troco, ele disse que não precisava, pois tinha acabado uma busca de mais de 20 anos. E eu nem sabia quem era o artista”, recorda.
 
Renovação
 
Quem acha, porém, que este é um hábito old school, está enganado. Paulo Sérgio destaca o fato de existir uma quantidade enorme de jovens interessados em deixar vivo o hábito de escutar música por meio dos discos físicos.

Percepção esta compartilhada por outras pessoas, como o dono da Deckdisk (RJ), João Augusto. “Ele ficou impressionado com o fato de as lojas estarem cheias de jovens”, conta Rodrigo, que teve a ideia de fazer o programa após um passeio com o empresário pela região do Soho londrino.
 
Reinvenção
 
Apesar de ter, sim, vários entusiastas do passatempo, Paulo adianta: bancar o hobby é caro. “A gente compra muito (vinil e CD) em dólar e sai caro. Por isto, o público é formado por quem realmente gosta de música”, justifica.

É certo que o preço e a facilidade em baixar músicas pela internet estão entre os motivos que esvaziaram as lojas de discos. Como, então, se manter no mercado? “As lojas independentes se posicionaram à margem do capitalismo moderno, apostando nas comunidades locais, em promover o novo, em estocar diversidade, em desafiar o óbvio. Por isso, o mercado de vinil é o que mais cresce percentualmente na indústria da música. Há inclusive números mostrando que ele gera mais receita do que o streaming”, aponta Rodrigo Pinto, ao citar uma pesquisa publicada em setembro, no digitalmusicnews.com.

Foi pensando em reinventar formas de sobreviver no segmento, que Alexandre Veloso conseguiu manter abertas duas lojas no Maletta. “No fim dos anos 90, surgiram os CDs piratas e vi que as lojas poderiam acabar. Então, deixei de trabalhar com discos novos e passei a revender usados”. A ideia deu certo. “O vinil cresceu muito nos últimos três anos, especialmente. Vendo mais vinis que livros e CDs; eles representam 60% das vendas”, afirma.
 

Lps

João Batista já produziu cerca de 16 mil “discos arquivos” de suas bandas preferidas. Foto: Carlos Henrique


Camisetas

Neste ramo, porém, nem tudo são flores. Há lojas de discos que, ironicamente, não sobrevivem dos discos. Douglas Garcia, filho dos fundados da Killers Records, na Galeria Praça 7, diz que, há mais ou menos 4 anos, uma das lojas precisou ser fechada “devido ao mercado”. “O mercado de discos não caiu; despencou. Hoje, a maioria das nossas vendas são de camisetas e acessórios. Discos, vendemos muito pouco”, lamenta.

A mesma situação é vivenciada pelo dono da Purple Records, na Galeria Praça 7, João Batista, 60. “O que me sustenta são as camisetas, porque a população não ouve música, ela dança música – e não compra disco. Quem compra é colecionador, e quem sai perdendo é a população, que não vive mais a experiência de ouvir música”, afirma.

Veterano no ramo, já que “flutua no rock’n roll desde que nasceu”, João Batista diz que o mercado mudou completamente desde 1995, quando resolveu abrir a loja ao se ver desempregado. “Comecei vendendo a minha coleção – e não parei mais”.