O pas-de-deux que permeia “Dança Sinfônica” reverbera a leveza e a forma clássica com as quais o coreógrafo Rodrigo Pederneiras decidiu contar a história das quatro vitoriosas décadas do Grupo Corpo. É ao mesmo e emblemático palco (o do Grande Teatro do Palácio das Artes) no qual, em 1976, os irmãos Pederneiras se arriscavam pela primeira vez, com “Maria, Maria”, que a companhia volta nesta quarta-feira (5), disposta a cumprir cinco noites até domingo, em programa duplo, que se completa com “Suíte Branca”.

Apresentações para as quais os amantes da boa dança depositam muitas fichas: os ingressos estão esgotados, o que sublinha a força deste grupo que se renova a cada espetáculo. Revisitar ideias que ficaram na gaveta e recordar, com sutileza, os que passaram pela companhia foram a intenção de Pederneiras em “Dança Sinfônica”.

“Tem muitas homenagens nessa dança. Muita gente passou por aqui e nos marcou. Não queria citar nomes, mas há figuras como Fernando Brant, um grande parceiro”, conta emocionado, ao lembrar do amigo (morto em 12 de junho) que compôs a trilha de “Maria, Maria” ao lado de Milton Nascimento. O público pode esperar uma coreografia bem marcada, com movimentos leves – e pautada pela emoção.

Colcha de retalhos

Composta por Marco Antônio Guimarães (Uakti) – que consta na ficha técnica do Corpo pela quinta vez – e executada pela Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, a trilha sonora traz trechos de músicas originais de outros balés do grupo. Uma colcha de retalhos bem costurados por Guimarães, que colocou, na música, de valsa a temas folclóricos.

Para arrematar tal enredo, o figurino, nos tons pretos e vermelho, assinado por um nome que dispsensa apresentações – Freusa Zechmeister – conferem sofisticação à peça calcada na memória.

Futuro

São 40 anos contados pelas pontas dos pés, que parecem flutuar, mas com um olhar para o futuro. O que está por vir é apresentado em “Suíte Branca”, também inédito, que abre a noite comemorativa.

Aqui, quem assina a criação coreográfica é a ex-bailarina do grupo, Cassi Abranches. É a “Lôra”, como Rodrigo se refere a ela, quem aponta os caminhos da renovação, com a bênção dos Pederneiras. Com um papel em branco nas mãos, como sugere o figurino da dança, Cassi ousou brincar com a gravidade com muitos movimentos de elevação e queda.

O rock cheio de psicodelia com pitadas de música jamaicana e distorções de vozes, composto por Samuel Rosa e a turma do Skank, propôs os desenhos da coreografia. “A música tem a pegada rock que eu esperava, e nuances que sugestionavam certos movimentos”, diz Cassi. Para Samuel, construir a trilha foi um mergulho nas referências da banda. “Demos vazão a tudo que nos influencia na música e não somente no Skank que vai para as rádios”. Com os dois balés inéditos o Corpo celebra passado e futuro de uma história que soma 38 montagens, com fôlego para mais 40 anos.

 29 vídeos foram disponibilizados no youtube.com/GrupoCorpoOficial