Em seu quarto longa-metragem como diretor, Tommy Lee Jones apresenta em “Dívida de Honra” (em DVD, pela Califórnia) um faroeste feminista, exibindo personagens masculinos que, quando não apenas preservam os interesses de seu gênero, repetindo estereótipos, apontam para o declínio de uma sociedade.

Esse retrato machista e decadente está representado principalmente no velho ladrão George Briggs, vivido por Tommy. Ele é obrigado a acompanhar uma diligência com três mulheres consideradas loucas, transportadas pela solteirona Mary Bee (Hillary Swank), que afasta qualquer pretendente devido ao seu estilo independente.
 
Sodomo e gomorra

Apesar de estar do lado “mau”, por assim dizer, é através do sujo e corrupto George que vamos entender a mensagem principal do filme, que deposita nas mulheres a salvação da humanidade. Esse aspecto religioso não é força de expressão. A trama carrega várias imagens que remetem a passagens bíblicas.

A mais impressionante delas é quando o dono (James Spader) de um hotel vazio se recusa a receber as mulheres. Como vingança, o local é incendiado como uma espécie de Sodoma e Gomorra, que foram destruídos com fogo e enxofre caídos do céu. E George pede à cozinheira que saia imediatamente, sem olhar para trás.

Embora surja como protagonista, a determinada Mary Bee aos poucos cede esse papel para George, ampliando a sensação no espectador de alguém que saiu das sombras para ganhar um lugar no paraíso, como o ladrão pregado na cruz ao lado de Jesus – que morre para salvar a humanidade, num gesto semelhante ao de Mary.
 
Santíssima Trindade

As três mulheres, que ficaram perturbadas devido ao abuso de seus maridos, podem muito bem serem definidas como a Santíssima Trindade. E uma sequência corrobora para essa aproximação, quando elas entram no rio para se banhar, simbolizando a purificação. De fato, elas parecem criar uma outra consciência após esse ato.

O resultado é uma jornada de sacrifício, que se vale dos elementos do faroeste para reforçar, de maneira dolorida, uma cultura machista, ditada pela força das armas.

Dirigido com maestria por Tommy, a solidão e a incompreensão falam mais alto nesse filme do que o cenário selvagem em que a história se desenrola.
 
Filme que Nicolas Cage renegou já disponível para ver em casa

O que chama a atenção em “Vingança ao Anoitecer” (Califórnia) é, curiosamente, tentar imaginar o que teria sido o filme concebido por Paul Schrader e montado à revelia do diretor – a ponto de o ator Nicolas Cage pedir aos espectadores que não o vissem.

Tirando a “casca” de thriller policial convencional, em que o agente da CIA de Cage nos remete a outros tantos veteranos que se confrontam com o passado e uma doença incurável – recentemente Kevin Costner apresentou esse perfil em “3 Dias para Matar”.

Mas é possível vislumbrar um tiquinho ainda do estilo de Schrader, que, em trabalhos como “Taxi Driver” e “Touro Indomável”, acentuou o conflito do homem como inimigo dele mesmo, da mente atormentada que parece fugir do controle.

Os poucos bons momentos são quando questionamentos se a doença do agente também é o mal da humanidade, que não sabe quando parar em sua obsessão por controle. Mas eles se perdem em função de uma narrativa frágil e sem surpresas.