Político gaúcho fundador do Partido Democrático Trabalhista (PDT), Leonel de Moura Brizola (1922-2004) foi exilado durante 15 anos e, de volta ao Brasil, chegou a ser governador do Rio de Janeiro, por dois mandatos, e candidato à presidência, encarando pleitos históricos em um Brasil recém saído da ditadura. Agora, as memórias sobre o personagem histórico são contadas pelo cientista político Clóvis Brigagão e pelo advogado Trajano Ribeiro no livro “Brizola”, (288 páginas, Editora Paz e Terra, R$ 40).
 
O livro mostra um Brizola humano, com qualidades, defeitos, limitações e coragens – muitas delas, por sinal. Daí a importância deste documento que também é capítulo inédito sobre o período de redemocratização brasileiro.
 
Brizola também foi governador de seu estado de origem, onde começou a marcar sua atuação como político defensor da educação.
 
Posteriormente, nos mandatos no Rio de Janeiro ficou ainda mais evidente este perfil, quando criou os chamados Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs).
 
Um deles foi instalado dentro do maior palco do samba do país: o Sambódromo, na Marquês de Sapucaí, que fora do carnaval funcionava como escola. Estas instituições tinham escolarização em tempo integral e eram voltadas para as crianças pobres.
 
A construção dos CIEPs também se deu graças à atuação do educador e antropólogo montes-clarense Darcy Ribeiro (1922-1997), que foi vice-governador e, por duas vezes, secretário de Educação no governo brizolista. Nos dois mandatos foram construídos 500 CIEPs no estado fluminense.
 
Amado e odiado, mas extremamente carismático, Brizola é autor de pérolas como “Estou pensando em criar um vergonhódromo para políticos sem vergonha” ou “Sou como uma planta no deserto, basta uma única gota de orvalho para me alimentar”.
 
Fama póstuma
 
Getulistas (uma referência ao ex-presidente Getúlio Vargas), sebastianistas (apaixonados pelo rei português D. Sebastião, do século 16) e, por que não, “brizolistas”? O carisma de certos políticos faz com que a admiração pela trajetória deles lembre o culto a um time ou causa social. Entre os eleitores deste político gaúcho, a história vem confirmando que assim também será.
 
Uma das provas da existência de adeptos do carisma e da atuação “brizolistas” aconteceu em 2012, em concurso realizado pela emissora SBT e pela BBC. Nele, Leonel Brizola foi eleito um dos cem maiores brasileiros de todos os tempos, ocupando a 47ª posição.
 
“Uniu-nos ao escrever estas memórias – não se trata de uma biografia – o fato de termos sido testemunhas e participantes da vida política – nada tranquila – de Leonel Brizola”, anunciam os autores, no início do livro.
 
Mineiro de Campestre, no Sul de Minas, Clóvis Brigagão, um dos autores destas memórias, conheceu o político no exílio, em Lisboa, em 1978. Em Portugal, foi convidado para ser o assessor direto dele, atividade que exerceu até o início dos anos 1990.
 
E é Brigagão que fala ao Hoje em Dia sobre a publicação destinada às novas gerações do, agora e, enfim, democrático Brasil:
 
Qual face do Brizola é mostrada no livro?
 
É o lado humano de Brizola, como liderança política que galgou todas os níveis políticos, à exceção da presidência, que era seu objetivo último. O livro vai de sua expulsão do Uruguai, passando pela ida aos Estados Unidos, Portugal e a volta, depois da anistia, ao Brasil, e continua até sua morte, em 2004.
 
Os jovens destes anos 2000 o conhecem?
 
Talvez ainda alguns. Mas a geração dos anos que vão de 1940 a 1980 certamente que sim. O livro é bem endereçado aos mais jovens pelo texto e por sua natureza de memórias vivas.
 
Há um senso comum que diz que ele não teria vencido a eleição para presidência da República “porque a Globo não deixou”. O senhor tem outro argumento para esta derrota?
 
O Brizola não venceu por sua própria causa e comunicação, ajudado pelo conservadorismo das elites políticas e da mídia brasileiras, incluindo aqui especialmente o sistema Globo, TV e jornal. A perda da sigla PTB marcou definitivamente o destino político de Brizola, e o PDT não alcançou o papel de protagonista da política brasileira.
 
Qual é o maior legado que ele deixou para o Brasil?
 
Sua coerência político-ideológica, seu legado na área da educação. Por exemplo, no Rio Grande do Sul, onde ele fez seis mil escolas, e no Rio com o programa dos CIEPs, ou “Brizolões”, como povo ainda os chama. Foi um político sem manchas de corrupção. Era um estadista e sabia como exercitar essa performance.
 
Por que dedicar este livro à esposa dele?
 
Neuza Goulart Brizola (irmã do ex-presidente João Goulart) era por gênero, número e grau, a pessoa que dava apoio sentimental, humano e também político-familiar ao desenvolvimento do Brizola. Foi pessoa importantíssima em todas as decisões dele, no Rio Grande do Sul, no exílio e na volta, até morrer prematuramente.
 
Como era a relação de Brizola com o mineiro Darcy Ribeiro?
 
Eram relações amáveis, calorosas e de confiança mútua.
 
Assim como existiram “sebastianistas”, “getulistas”, entre outros, o senhor acha que ainda exista um grupo póstumo de “brizolistas”?
 
Sim, ainda há em muros pintados pelo Brasil, com o nome de Brizola – “Ele voltará” – um sebastianismo brasileiro.