PARATY – A 13ª Festa Literária de Paraty (Flip) chega ao fim neste domingo, provando que a escrita não está só nos livros clássicos e poemas homéricos. Muitas leituras se espalharam pelas mesas principais e os eventos paralelos que tomaram conta da cidade histórica fluminense, mesmo com orçamento menor, sem um grande nome no show de abertura e a cidade um pouco mais vazia do que nas edições anteriores.

Prova da extensão da literatura foi a mesa que reuniu dois matemáticos de peso, o brasileiro Artur Ávila, vencedor da medalha Fields – espécie de Nobel da área – e o russo Edward Frenkel. Apresentando o lado sensual da ciência dos números, concordaram num ponto fundamental: o ensino da matemática parou no tempo.

Outros cientistas tomaram o lugar dos escritores na Tenda dos Autores sem desvirtuar o evento literário: o neurocientista Sadarta Ribeito, que garantiu estar diante de pessoas que poderão viver mais de 300 anos, e o economista e filósofo Eduardo Giannetti, dizendo que isso seria um problema em caso de casamento monogâmico. A discussão sobre as ilusões da mente conquistou o público.

Mas temas políticos e históricos tiveram espaço forte na Flip. A morte dos cartunistas franceses da Charlie Hebdo, em janeiro deste ano, foi lembrada por Riad Sattouf, de 37 anos, que trabalhou por dez anos na revista – mas, à ocasião do atentado, enviava sua contribuição por e-mail – e o francês Plantu, que faz cartoons políticos. Ele mostrou um desenho em que o papa Francisco e Jesus Cristo estão num barco ajudando os náufragos africanos que tentam chegar a países europeus. “Esse papa está dando lições aos homens políticos da Europa”, disse.

Depois do atentado, concordam os dois, o papel dos chargistas ganhou importância. “Eles eram uns frustrados sexuais e agora eles têm que assumir uma posição corajosa”, disse Riad, que lançou na Flip “O Árabe do Futuro”, lembrando sua infância entre a Síria e a Líbia. Plantu mostrou cartoons que foram censurados e não saíram no Le Monde, que ele acabou reunindo em livro.

 

Mário de Andrade

As marcas de Mário de Andrade tomaram conta de Paraty. Não é difícil encontrar as celebrações brasilianistas do escritor por toda parte. Das obras cenográficas que decoram a Praça da Matriz e foram tiradas do livro “Macunaíma” a debates que ele, certamente, adoraria.

Num destes, o músico Jorge Mautner, autor de “Maracatu Atômico”, fez parceria com o autor pernambucano radicado em São Paulo Marcelino Freire e de tudo se falou. Da crise econômica, que para Mautner é “superficial”, à política com a “onda conservadora no país”, chegou-se à homossexualidade do autor homenageado. Marcelino disse que, como homossexual, estava contente que Mário de Andrade estivesse sendo celebrado “como escritor”. A mesa foi mediada pelo gestor cultural Claudiney Ferreira, do Itaú Cultural.

A Flip termina neste domingo com José Miguel Wisnik fazendo a conferência de encerramento, depois da mesa que reunirá o cubano Leonardo Padura e a britânica Sophie Hannan.

 

Censura vem da sociedade civil, diz diretor do semanário 'Charlie Hebdo'

Depois de passar por detectores de metal, revistas (pessoais, de bolsas e de mochilas) e sob olhar atento de policiais federais espalhados pelo auditório, o público presente ao Congresso internacional da Abraji (Associação  Brasileira de Jornalismo Investigativo) pode enfim assistir à palestra proferida pelo cartunista e diretor editorial do jornal satírico "Charlie Hebdo" Laurent Sourisseau, o Riss.

Antes de sua fala, o mediador e ativista dos direitos humanos Frank La Rue pediu ao público um minuto de aplausos de pé, em oposição ao tradicional minuto de silêncio, para simbolizar a liberdade de expressão.

Riss se levantou, mas não aplaudiu. Durante o atentado sofrido na sede da publicação, o cartunista foi atingido com um tiro no ombro, e hoje seus movimentos no braço direito são limitados.

Depois de repassar a história do semanário em que trabalha, desde a censura sofrida por partidários do general Charles de Gaulle em 1970 -quando Charlie Hebdo ainda era Charlie Harakiri- após uma capa satirizando a morte do mandatário até o atentado sofrido no começo de 2015, Riss resumiu ao que se propõe o Charlie: "Lutamos pela liberdade para que outros a exerçam, porque se ninguém a exercer, ela vai desaparecer. E o que os islamitas radicais querem é que tenhamos medo de exercê-la".

Sobre a questão islâmica, Riss disse se sentir isolado, pelo fato de o "Charlie" ainda ser uma das poucas publicações a satirizar o tema. Mas ressaltou: "Não falamos só sobre Maomé. Abordamos questões ecológicas, sociais, jurídicas. Não se deve criar um jornal obcecado por religião".

E ressaltou a sua defesa das caricaturas polêmicas publicadas pelo "Charlie". "Falamos sobre religiões para questionar seus dogmas. É um debate filosófico, mas muitas religiões tomam como uma crítica pessoal", disse.

"Hoje, a censura que sofremos foi privatizada. Ela não parte mais do poder político, mas sim de lobbys religiosos e associações civis que promovem verdadeiros achaques judiciais".

Antes de receber mais uma sessão de aplausos ao final da mesa, Riss respondeu a uma pergunta da platéia, que queria saber se ele estava otimista com o futuro. "Não". Foi a resposta, curta e grossa como um cartum. 

com Agência Estado.