PARATY – No encontro de grandes nomes da literatura mundial, alguns desconhecidos dos leitores brasileiros, um se destaca na 13ª Festa Literária de Paraty (Flip). Há dez anos cotado para o prêmio Nobel de Literatura, o queniano Ngugi wa Thiong traz a voz da África colonizada e sofrida e vai reconhecendo no Brasil, onde está pela primeira vez, os rastros da escravidão.
 
Com o queniano, chegam finalmente ao Brasil os seus livros. Ele lançou nesta sexta-feira (3), na Paraty de ruas que “são pedra pura” na sua percepção, o romance “Um Grão de Trigo”, pela ed. Alfaguara, e em breve sai a tradução de sua obra de memórias “Sonhos em Tempos de Guerra”.
 
Ngugi exilou-se nos EUA depois de passar um ano na prisão, em seu país, por ter escrito uma peça de teatro em que pregava a liberdade para o Quênia. Entre dezembro de 1977 e dezembro de 1978 escreveu, em papel higiênico, o livro “O Diabo na Cruz”. “Porque na cadeia só nos davam caneta e uma folha de papel para escrever a confissão”.
 
O escritor aproveita para ver como reverbera aqui, nos dias de hoje, a imigração de negros escravizados.
 
“Também a luta pela terra é uma coisa em comum com o Brasil. Eu daria o Nobel para o Jorge Amado porque pelos livros dele eu conheci o Brasil, pela Bahia eu conheci o povo brasileiro”.
 
O escritor leciona Literatura Comparada na universidade da Califórnia e voltou a escrever ficção em sua língua de infância, o kikuyo, como forma de resistência.
 
Assim como o cubano Leonardo Padura, Ngugi acha que o primeiro requisito de um bom autor é escrever bem, mas o comprometimento social é inerente. “Uso minha vida pessoal e também de meu país colonizado pela Inglaterra”.
 
Para ele, mais importante do que receber um grande prêmio, é ouvir de leitores africanos que um de seus livros produziu esperança.
 
* Viajou a convite do Itaú Cultural. Leia mais sobre a Flip no portal hojeemdia.com.br