Dois autores exilados com relações intensas com seus países de origem debateram literatura, política e hipocondria na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).  Sasa Stanisic, que lançou nesta quinta (2) o romance “Antes da Festa”, migrou para a Bósnia aos 14 anos e escreve em alemão. Diego Vecchio deixou a Argentina aos 12 anos e se mudou com a família para a França, mas permanece escrevendo em espanhol.
 
O mediador, Joca Reiners Terron, passou o debate buscando coincidências entre os dois e o que conseguiu, além de detalhes bem-humorados, foi o relato compromissado de dois jovens que escrevem para manter viva a história de seus países. As guerras das Malvinas e da Bósnia deixaram marcas nos autores, mas não impediram que a inventividade, que um dia esteve com os citados no debate Júlio Cortázar e Jorge Luís Borges, permeassem seus livros. 
 
Acerca das guerras de suas vidas, Diego atestou que só descobriu quando adulto o que o discurso “tranquilizador” da ditadura escondia. “Só muito depois fui descobrir o que ocorreu em 1982”. A guerra, para Sasa, parecia distante, embora ele fosse obrigado, quando criança, a se esconder dos soldados e presenciasse a morte de pessoas e cavalos.
 
 “Conseguimos sair do país graças a uma piada de meu pai. Fomos parados por soldados que perguntaram se levávamos armas. Meu pai disse que sim: gasolina e isqueiro. O soldado riu e nos deixou passar, o que foi a sorte, pois se tivesse pedido nossos documentos teriam visto que minha mãe é árabe e talvez houvesse problema”, contou.
 
Para o romance “Micróbios”, que saiu no mês passado pela Cosac Naify, Diego Vecchio inspirou-se na obra do médico de Rousseau, Samuel Tissot, escrita em 1768, “A Saúde dos Homens das Letras”. Nele, o argentino Diego retrata uma guerra diferente: a do corpo com os micro-organismos. Ele mesmo diz ter se tornado hipocondríaco, com mania de criar doenças, como “os escritores têm mania de criar histórias”.  
 
Também Sasa Stanisic se ampara em relatos dos tempos dos seus antepassados para contar “Antes da Festa”, que se se passa num vilarejo da Bósnia. “Queria preservar as histórias, por isso as escrevi. A maioria dos meus personagens tem mais de 80 anos. Eu adoro velhos porque adoro a memória”, disse o jovem escritor, antes de enfrentar uma longa fila de autógrafos do livro que sai, no Brasil, pela editora Foz. 
 
(*) A jornalista viajou a convite do Itaú Cultural