O Brasil sedia, pela primeira vez, o festival “Comfort Food – Comida de Mãe”, um evento que remete a uma cozinha afetiva e se transformou em uma forte tendência na gastronomia internacional. A iniciativa é praticada por chefs e restaurantes renomados em várias partes do mundo, e será realizada no mês em que se comemora o Dia das Mães, no dia 23 de maio, das 12h às 22h, na Praça Marília de Dirceu, no Lourdes, em Belo Horizonte. 
 
O restaurante Dona Lucinha, hoje comandado por Márcia Nunes, filha de dona Maria Lúcia, participará com uma receita que faz referência às primeiras cozinheiras com quem cada pessoa tem contato, que geralmente são nossas mães, tias e avós. Para a atividade, será preparado o “Doce Jequitinhonha”, um prato que foi elaborado há cerca de quatro anos para que os conterrâneos da região do Vale do Jequitinhonha e Vale do Rio Doce pudessem relembrar a época em que viviam com suas famílias. A comida é composta por pirão de peixe, cubos de tilápia empanada no fubá (ingrediente típico das duas regiões), banana da terra flambada na cachaça e couve frita. Para a sobremesa, Márcia preparou um doce mineiro bem característico, “Romeu e Julieta na Casquinha”, que é feito com uma massa para doce com queijo cremoso e goiabada derretida. 
 
 O “Comfort Food - Comida de Mãe” levará também para o público diversas opções de comidas de outras nacionalidades. O Demae, por exemplo, apresentará o prato Maze Gohan (arroz misturado) de bardana com cogumelo shitake. A chef Keiko Tanaka conta que o prato era preparado pela sua mãe pelo menos duas vezes por semana e, por isso, sente grandes saudades dessa comida. É uma receita preparada com várias técnicas e ingredientes típicos no Japão, que leva o tempurá (empanado) de camarão como acompanhamento. Já outro restaurante participante, o Takos Cocina Mexicana, levará a La Tortilla, que é composta por insumos tradicionais nas casas das famílias mexicanas, principalmente em datas comemorativas, reuniões familiares e feriados nacionais. Essa é uma comida típica do Texas (EUA), onde o proprietário do Takos, Rodrigo Ciolete viveu por um tempo, e sempre se lembra da comida que era feita com um toque especial por americanos e mexicanos que viviam no local.
 
Opções mais populares também farão parte das comidas encontradas no Comfort Food – Comida de Mãe. O “Mexidoido Chapado”, criado em 2006 pelo chef Ilmar Jesus do restaurante Casa Cheia surgiu quando ele ainda cozinhava por hobby, chegava do trabalho e da faculdade já tarde da noite e preparava sua própria comida, misturando ingredientes e toques especiais que aprendeu com a sua família. “A mistura leva arroz, iscas de alcatra, lombo defumado, linguiça caseira, legumes variados entre eles abobrinha, cebola, repolho roxo, milho, pimentão, brócolis e o principal, um tempero digno da tradição, uma mistura de cerca de 15 ervas aromáticas diferentes, tudo feito com bastante azeite na chapa, daí o nome Chapado”, explica o chef. Outro prato bastante popular será servido pelo restaurante Angelina Café: o famoso “Estrogonofe da Vovó Angelina”. A vovó Angelina viveu até a década de 60 em Dores do Indaiá, no interior de Minas Gerais, e a sua receita de strogonoff ficou tão famosa ao longo desses anos que seus netos e bisnetos resolveram homenageá-la colocando seu o nome do restaurante e oferecendo em seu cardápio, não só o famoso estrogonofe, mas também diversos outros pratos baseados em receitas tradicionais de família. 
 
Para o organizador do evento, Christiano Rocco, o evento será uma oportunidade única de unir diversos sabores baseados no conceito comida de mãe. Confira, a seguir, trechos de uma entrevista com Rocco.
 
Por que a comfort food tem se disseminado no mundo? Seria uma espécie de contraponto a uma sociedade que vem sendo apontada como mais materialista e individualista? A que valores a comfort food estaria atrelada?
A "comida confortável", conhecida como Comfort Food, surge como uma alternativa, para se contrapor a uma sociedade que, consciente que atualmente muito se aposta em food trucks e fast foods, inclusive pela falta de tempo de a maioria das pessoas para se alimentar, adota alternativas de uma opção confortável e diferenciada para se comer bem. Acima de tudo, a proposta comfort food vem para resgatar as tradições de uma cultura enraizada nos valores familiares, da boa comida servida nos momentos mais importantes celebrados com a família. É o resgate de lembranças multissensoriais que temos de pratos experimentados no passado, em especial, aqueles feitos pelas nossas mães e que são lembrados com saudades. Esses pratos nos remetem ao colo, ao aconchego, ao conforto dos braços de mãe, que muitas vezes, nos mimam preparando delícias com amor que só elas podem oferecer.
 
Existem experiências similares, de eventos assim, em outras partes do mundo e mesmo em outros estados do Brasil?
Não, o evento é inovador e o pioneiro no Brasil. 
 
A ideia é incorporar o evento ao calendário belo-horizontino? Qual a expectativa de público?
Sim, a ideia é que o belo-horizontino conheça o estilo comfort food e insira este estilo de gastronomia em seu cotidiano, deixando um pouco de lado os fast foods, food trucks, e incorpore os valores e as tradições alicerçadas na comida feito com o amor de mãe. A expectativa é receber 5 mil pessoas.