“Até parece filme do Jason. Quando a gente acha que eles foram embora para sempre, voltam”, diverte-se o músico Tullio Dias, comparando o grupo Los Hermanos ao serial killer da franquia de terror “Sexta-Feira 13”, que ressuscita a cada filme. Esse caráter misterioso sobre o futuro da banda é o que torna cada show o “último”. Os ingressos para a apresentação na Esplanada do Mineirão, em outubro, ainda não estão esgotados, mas os fãs (que não são poucos) podem matar um pouco da saudade agora, nos cinemas.

O grupo criado em 1997 é o foco do documentário de Maria Ribeiro, que ganha sessões especiais nesta quinta-feira (14), sábado e domingo, às 21h, no BH Shopping. O título não poderia ser menos enigmático: “Esse é Só o Começo do Fim da Nossa Vida”.

Com ou sem fim próximo, os fãs parecem não enjoar de ouvir o repertório dos quatro discos lançados, o último deles há dez anos. A produtora cultural Luisa Moraes é um caso clássico: viu de perto o show realizado em BH há dois anos, além de várias apresentações solo.

“Eles fizeram parte de uma época boa da minha vida, que é sempre legal relembrar”, assinala Luisa, uma das que garantiram o “bilhete dourado” para outubro. Ela lembra que, em 2006, morando no exterior, ficou arrasada quando tomou conhecimento do “desmanche” do LH.

Mas sem mágoas. Hoje, ela entende “que souberam fazer a coisa certa, comercialmente falando”. “Tanto para a própria banda quanto em relação aos projetos pessoais de cada um dos integrantes” – que, aliás, só retomaram a parceria em 2012.

Revival estendido

Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Rodrigo Barba e Bruno Medina fizeram uma turnê nacional de “despedida”, mas retornaram à cena ano passado, para duas apresentações no Rio de Janeiro. Bem, os fãs pediram e o grupo estendeu o revival a outras cidades. É esse “para, não para” que incomoda Taciana Santos, estudante do último ano de Psicologia na Universidade Federal de São João del-Rei. “Seria legal se tivessem realmente fechado um ciclo em 2013. Agora parece uma turnê caça-níquel”. Para ela, essas constantes ressurreições caminham em sentido contrário à filosofia que a banda pregava. “Não faziam música para vender, para o mercado. Não eram fáceis de gravar na cabeça, com a gente nunca sabendo uma música inteira de cor”, destaca Taciana.

A futura psicóloga sempre gostou do estilo “fazer pensar” das canções do LH. “Sou muito ligada às letras e tenho a impressão de que a música deles reproduz cada fase que nós vivemos. Isso marca a gente. É como se falassem por nós”.

Outro fã confesso da banda, Anderson Almeida concorda: “As letras são muito inteligentes, muito diferente do que se faz atualmente na música. Eles têm uma história para contar”, salienta Anderson, que prefere o repertório mais lado B do Los Hermanos. Só lamenta o preço dos ingressos, mais salgados a cada retorno deles.

 

Fãs do Los Hermanos comemoram estreia de filme sobre a banda e show em BH

EM AÇÃO – Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante em cena do filme, que terá sessões especiais no BH Shopping (Foto: Divulgação)

 

Antes de virar moda até parada por ‘não ter mais para onde ir’

Menor de idade, Gustavo Abreu pegou a carteira de identidade de seu tio, “emprestada” como ele mesmo frisa, para poder entrar no Cine Íris, palco da gravação do DVD ao vivo dos Los Hermanos, lançado em 2004.

“Não contei para nenhum dos amigos que foram comigo, para não dar nenhum problema. Foi a primeira vez que fiz uma coisa errada na vida”, lembra, divertido, o proprietário da editora mineira Letramento.

Ele se apresenta como “um dos fãs mais velhos”, curtindo o som do LH quando ela “ainda era uma banda independente e desconhecida”. Recorda que tinha dois EPs quando foi, pela primeira vez, a um show do quarteto.

Após o lançamento do primeiro disco, homônimo, em 1999, Gustavo ajudou a criar o grupo “Los Hermanos BH”, plataforma de troca de e-mails no Yahoo. “Todos os meus melhores amigos hoje são daquela época”, afirma.

Naquele tempo, segundo Gustavo, “gostar de Los Hermanos era fugir de uma modinha que acabou se tornando moda depois”.

Experiência também compartilhada por Tullio Dias, um dos primeiros divulgadores do som do LH. O músico lembra muito bem do show de “Ventura” realizado na extinta casa Lapa Multshow, em 2003. “A banda chegou a parar de tocar, depois que uma menina desmaiou. E o (Rodrigo) Amarante estava babando igual a um louco no palco”.

Influências

Depois desse episódio, Tullio não perdeu mais nenhum show até o anúncio da parada do grupo. Só reencontrou o LH em 2009, quando eles tocaram com o Radiohead no Just a Fest, no Rio de Janeiro e em São Paulo. “Vi os dois (shows). No primeiro, parecia que não tinham ensaiado”.

Para Tullio, a importância do grupo pode ser medida na influência exercida numa nova onda de artistas independentes, citando principalmente Cícero, que regravou “Conversa de Botas Batidas”, do disco “Ventura”.

“O Los Hermanos tem consciência da importância da música deles no Brasil. E também de seu poder sobre os fãs, que são iguais aos fãs dos Beatles, muito xiitas”, compara Tullio, para quem a banda só parou em 2007 porque “estava no auge e não tinha mais para onde ir”.

Entrevista Maria Ribeiro

Fã assumida da banda Los Hermanos, diretora avisa: “Que ninguém espere um filme polêmico ou invasivo”

No material de divulgação do filme, você afirma que o Los Hermanos é uma antibanda. O que faz deles o oposto da imagem que se tem desses grupos famosos?

Antibanda de rock no sentido de não acreditar no sucesso, de privilegiar a vontade de tocar a qualquer consequência mais frívola, como fama ou egotrip, e também no sentido da ausência de personagens. Os meninos são super família, tocam com a mesma roupa com que vão na van e nunca entraram numa onda popstar.

Quais são os “perigos”, se assim podemos dizer, de fazer uma documentário sobre um paixão assumida?

Acho que ser fã, nesse caso, mais ajudou do que atrapalhou. Os garotos são reservados e sabiam do meu amor por eles. Do contrário, não teriam me dado o acesso que deram. E acho que sempre deixei pública a minha admiração, que ninguém espere um filme polêmico ou invasivo.

E os desafios de se fazer um filme na estrada, em que é preciso contar também com um pouco de improviso?

Documentários têm essa característica do imprevisível. E essa é justamente a maior virtude do filme, a meu ver.

O que leva a banda, mesmo após um grande hiato, a ter tantos fãs como o Los Hermanos?

Quanto aos fãs, acho que ainda não apareceu nenhum grupo com um discurso tão cheio de valores pra quem inicia a vida adulta. Talvez por isso, ainda hoje, o som dos caras chegue a tanta gente. Sem falar na qualidade artística.

*Atriz e diretora do filme "Los Hermanos: Esse é só o começo do fim da nossa vida"