À primeira vista, dá até para confundi-lo com o cavaquinho. A sonoridade, no entanto, entrega logo que se trata de outro instrumento. “O ukulele (ou ukelele e, ainda, ukulelê) tem apenas quatro cordas e o som é tão delicado quanto o de uma caixinha de música”, descreve o músico mineiro Rogério Delayon. E foi justamente essa suavidade que despertou o interesse dele e do também compositor Marcos Frederico. Juntos, os dois produzem um disco instrumental, previsto para ser lançado no segundo semestre deste ano.

“O tempo todo são somente dois ukuleles dialogando”, diz Marcos. Ele conta que a ideia surgiu depois que presenteou a filha Lira, de apenas 2 anos, com o instrumento. “Ela já consegue tirar algum som, mas, por enquanto, é apenas uma brincadeira. Fiz essa escolha porque as cordas são de nylon, que machucam menos as mãos”, explica.

O álbum da dupla, ainda sem título definido, é totalmente autoral e dedicado ao público infantil – em especial, aos bebês. Buscando deixá-los bem calminhos, a dupla se inspirou nas composições do francês Debussy (1862 – 1918), e optou por um repertório predominantemente erudito. “Acredito que o trabalho seja inusitado. Não tenho informações sobre outro elaborado nos mesmos moldes”, afirma Delayon.

Essa, porém, não será a primeira vez que Marcos Frederico usará o instrumento em um trabalho. Em parceria com Lucas Fainblat, ele lança, em julho, o disco “Universo Carapuça”, no qual o ukulele aparece na música “Manzana del amor”.

Escola ensina a arte

Assim como Marcos e Delayon, o professor da escola Uai Music, Tiocapone, enxergou no ukulele a chance de atrair os olhares (e ouvidos) dos pequenos. “Estou planejando um curso voltado apenas para as crianças porque é um instrumento relativamente fácil de aprender a tocar”, conta.

Há dois anos e meio, a escola oferece o curso para jovens e adultos. Apesar de já ter caído no gosto de vários artistas brasileiros, o professor diz que a procura ainda é tímida. “Nem todo mundo conhece o instrumento, mas, quando escuta, a maioria das pessoas vibra, porque tem um som bonitinho”, completa.

Nos palcos

Outra mineira que também parece ter se encantado pelo ukulele é a cantora Marina Machado. “A sugestão de usar o instrumento veio dos meus produtores e aceitei logo porque, por ser menor, me senti mais confortável para tocá-lo e, pelo fato de não doer as mãos, me permitiu fazer acordes que não conseguia no violão”.

Depois de gravar, em 2013, seu quarto álbum da carreira, “Quieto um Pouco”, Marina Machado levou, para os seus shows, esse toque suave, reverberado em canções como “Vagalume”, “Vai Chover” e na a música homônima ao título do trabalho.

Vídeos de Clarice Falcão com o instrumento inspiraram jovens

Joice de Souza, 17 anos, e Michele Carvalho, 15, não conhecem Luiza Rodrigues, 18, mas, se um dia seus caminhos se cruzarem, é certo que assunto não faltará. As três aprenderam a tocar ukulele sozinhas, através da internet, inspiradas pela dublê de atriz e cantora Clarice Falcão, que postou vários vídeos na web com a “pulga saltitante” (significado do nome no idioma havaiano).

Por meio de um projeto social coordenado pelo professor Tiocapone, Joice e Michele se tornaram amigas e, de lá para cá, o instrumento se tornou um dos temas prediletos entre elas. “Acho que o ukulele despertou, em mim, um amor à primeira ‘escuta’”, brinca Michele. Autora de uma canção feita no instrumento, ela conta que já dá aulas de musicalização infantil, porém, ainda não decidiu se vai continuar levando o trabalho como profissão. “Só tenho a certeza de que a música, de alguma forma, sempre estará presente em minha vida”, assegura a jovem.

Tão talentosa quanto Michele, Joice diz que o gosto pela música vem desde criança e, por isso, aprendeu a tocar violão, contrabaixo e violão bem cedo. “Mas, quando vi a Clarice tocando ukulele, fiquei maravilhada com o som que ele produz e percebi que combinava muito com o meu estilo musical favorito, o reggae”, frisou. Apesar de acumular na bagagem 15 composições feitas no violão e cinco no ukulele, para ela, a música é um hobby. “É uma forma de me divertir e de me acalmar”, afirma.

Já Luiza desenvolveu habilidades na música com o incentivo dado pelos pais desde nova. O violão, ela aprendeu a tocar há cerca de três anos e, há dois, o ukulele. “Gostei dele logo que o escutei. Acho que o tamanho pequenininho me chamou a atenção. Ele é bonitinho e tem um som muito legal”, diz a estudante.

O instrumento

De origem portuguesa, ukulelê significa “pulga saltitante” e ficou mais conhecido no Brasil depois que o cantor havaiano Israel Kamakawiwo'ole gravou, em 1993, uma versão de “Somewhere Over The Rainbow”, do filme “O mágico de Oz”.

O modelo mais popular é o soprano, o menor de todos. Contudo, há também o concert, o tenor e o barítono, que são um pouco maiores.

Apesar da semelhança física com o cavaquinho, o ukulele tem características bem peculiares. O professor de música Tiocapone explica que as cordas, por exemplo, são feitas de tripa ou materiais sintéticos como o nylon, enquanto que, no cavaquinho, são de aço. Já o violão tem seis cordas, podendo ser de aço ou nylon.

A afinação padrão do ukulelêeé sol-dó-mi-lá; do cavaquinho ré-si-sol-ré; e do violão mi-si-sol-ré-lá-mi. Outro detalhe sobre a afinação do ukulele é que a quarta corda é mais aguda do que a terceira. Essas diferenças fazem com que o instrumento “fale” mais alto do que o cavaquinho, por exemplo.

Veja alguns vídeos de artistas tocando o instrumento:

Michele Carvalho – “Coração radiante”:

Clarisse Falcão – “O que eu bebi por você”:

Banda Ukuleladies, da peça “A primeira vista”, protagonizada por Drica Moraes e Mariana Lima. No vídeo, a música “Come as you are”, Nirvana:

Jack Johnson – “Breakdown”: